29.4.08


Ipanema foi minha referência nas últimas quatro décadas. Saí de lá aos 26 anos, voltei aos 34, cortei os laços com aquelas areias em 2002. Passei a freqüentar outra praia, poucos amigos permaneceram no bairro onde fomos criados.
Se o acaso me leva a caminhar em Ipanema, não sei mais quem são as figuras que transitam pelas calçadas que tanto percorri, estranho o comércio que se sofistica em determinados pontos e embreguece em outros. Mas reconheço os ventos que vêm do mar, que vislumbro da Visconde de Pirajá onde morei também. O tráfego é muito menos intenso do que em Botafogo, os pedestres caminham, não andam.
A Veronese ganhou um letreiro novo, mas a lasanha ainda deve ser deliciosa. A General Osório onde brinquei a infância inteira parece menos feiosa, toda gradeada, canteiros encobertos, no entanto porque é dia de feira. Ao lado da Veronese, o supermercado já foi Mar e Terra, agora é Zona Sul. Que aliás, teve sua primeira loja na esquina da Teixeira de Melo. Era um mercadinho modesto, mas bem estruturado, desde seu início, próximo à Casa Mattos. Morei na Visconde de Pirajá 8, em cima da Colegial, onde comprava uniforme de colégio. Dali, fui para a Barão da Torre 15, aos 10 anos, bem depois das enchentes de 66, quando o Cantagalo caiu e a portaria do prédio foi coberta de lama. Quando chovia muito, saíamos do Notre Dame pela Nascimento Silva, uma aventura divertidíssima na rotina das meninas de colégio de freiras, sem grandes novidades.
Aos 13 anos comecei a ir sozinha à praia, liberando meu pai de me tutelar no Castelinho. Na praia estreitei ou fiz grandes amizades que perduram até hoje. Ali, me iniciei na arte da paquera e do amor platônico, pois os amores reais, naqueles tempos de sexo não abençoado pela família, se concretizavam em outras plagas.
A praia era uma conquista diária de território que só abandonava nos fins de semana de verão, insuportavelmente cheios. Nenhuma areia é mais quente ou mais suave que a de Ipanema, que fazia um ruído deliciosamente chiado quando a atravessavamos. Eu invejava o mar calmo de Copacabana, mas me congratulava pela longa extensão branca até as águas geladas e quase sempre furiosas do Posto 8, que se tranqüilizavam no verão, mas congelavam quem tentava se refrescar nelas.
Saíamos de Ipanema em busca de cinemas melhores que o Pirajá, cujos porteiros não ligavam para a idade dos espectadores que assistiam sessões contínuas de "Sunshine" ou "Uma janela para o Amor". O melhor cinema era o Pax, no prédio da Igreja, mas houve também o Bruni 70, no Bar Vinte, e o pequeníssimo Poeira, na Jangadeiros. Foi lá que vi, pela primeira vez, "O Mágico de Oz". Todos deram lugar a edifícios ou galerias com lojas, mesmo destino das duas casas que abrigaram o Jangadeiro.
A Ipanema que nasce neste século é tão linda quanto a que me criou.

2 comentários:

tertulías disse...

querida olga, amo estes teus relatos... me sinto "em casa", de novo numa época em que eu moava no rio... nos somos bem contemporaneos. até breve!
ricardo

Olga disse...

Deve dar uma saudade... Mas deve ser fantástico ter uma experiência de exílio voluntário.
Beijo