4.9.05

Vida que segue


Júlia se preparando para sair, experimentando biquínis com uma amiga que dormiu aqui em casa. Vão para a casa de outra menina, em frente ao prédio, um daqueles novos apart-hotéis de Botafogo, com piscina, sauna, sala de jogos, pista de atletismo, tudo para manter seu filhote confinado numa vida protegida, embora as balas da guerra no Santa Marta possam atingir suas vidraças blindadas.
Eu? Ah, eu quero ficar em casa, apesar do dia lindo, lendo um bocado ou assistindo a "Orgulho e Preconceito" na TV. Adoro ver Colin Firth com aquele ar absolutamente inexpressivo, vazio, de Mr. Darcy. Conheci um homem com a mesma inexpressão. Tem gente que leva a vida com cara de entojo.

Semaninha Cã


Tiroteio no Santa Marta, morte e enterro do Alva, Gabeira desanca com Severino na Câmara e reacende a paixão em eleitores desiludidos, impedimento de blogar do trabalho, Nova Orleans debaixo d'água, conscientização sobre picaretagem em todos os campos da vida, início de inferno astral.
Uff, cansei!!!!

Depois do maremoto


Foi nos idos da década de 70 que começaram a surgir em muros de Ipanema a misteriosa inscrição Celacanto Provoca Maremoto. Depois de algum tempo – naquela época, a vida era mais lenta, sem exigências de informações imediatas -, apareceram reportagens sem localizar o autor do graffitti, decifrando a mensagem intrigante: celacanto é um peixe abissal, considerado um fóssil vivo, pois espécies semelhantes sumiram do planeta há quase 300 milhões de anos. A frase viria da série de TV “National Kid”.Quando a década já estava prestes a acabar e pichadores se proliferavam como roedores, marcando muros pela cidade inteira, descobri a identidade do Celacanto. Era um nerd grandalhão, primo de um de meus melhores amigos. O segredo chegou à imprensa, não por minha obra, era apenas uma colegial então.Por que tudo volta trinta anos depois do Celacanto borrar a Zona Sul carioca? Porque ontem acompanhei o enterro do pai de outros amigos, todos do mesmo grupo que está junto desde os anos 70. Esses amigos são meus parentes escolhidos e sepultar um pai é soterrar, definitivamente, nossa juventude. Hoje, ainda nublada por um pesar que se desdobra desde a morte de meus pais, encontrei a inscrição na Internet. Hora de limpar essas inscrições, pintar as paredes da alma e seguir com a vida, levando as saudades numa caixinha de lembranças queridas, que abrimos para sorrir e massagear com ternura os dias difíceis.