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13.8.17

Inspiração

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Desorganizada por natureza, há muito dispensei as agendas, mas ainda mantenho um caderninho de telefones (quem perde o celular entende o desespero). Adoro calendários de mesa, aqueles que a gente rabisca compromissos jamais cumpridos. Pois bem, eles não existem mais, porém são "printables". E a maioria está à disposição "free" - tudo em inglês, claro. Aí, escrevo: calendário grátis imprimir 2017. Vem um pouquinho. Mudo para "planner" e as imagens inundam a tela. Conformada, imprimi um do mês August, já colado na parede, da qual me apropriei como adolescente, enfeitando com ídolos velhuscos e inspiradores. Ficará lá para nortear meus tortuosos caminhos.

29.4.15

Reflexões em tempos de esvaziamento de ninho.

Casa é uma construção diária. Casa precisa contar a história de quem vive nela.

Amo o programa "Morar", sucessor do "Casa Brasileira", ambos do Alberto Renault, que passam no GNT. Claro que lá só entram belas casas impecáveis. Também adoro o o site The Selby, do fotógrafo e ilustrador novaiorquino Todd Selby, que, em 2008, começou a publicar imagens das casas de seus amigos.  Neste estão aqueles lares com jeito de habitados, desarrumadinhos.

Gosto dessas fotos de casas desmazeladas. Cresci em ambientes muito organizados, a regra dos lares na minha infância. Mas com as mudanças sociais brasileiras - leia-se: o escravagismo acabou e as empregadas domésticas cobram caro por seus serviços - , cada vez mais, as casas brasileiras perderam aqueles ares revista de decoração.

Hoje, olho minha sala eternamente fora de ordem, entupida de livros despencando pelas prateleiras, sofás arrebentados pelas garras dos gatos, mantas esquecidas por quem assistiu a filme até tarde, bolsas de compras jogadas sobre algum móvel, plantas invadindo todos os espaços possíveis. Muita informação, como já disse um amigo querido, arquiteto de interiores requintadíssimo. Estilo boêmio-romântico, classificou outra amiga. Eu fico feliz com as duas definições - a bagunça nossa de cada dia mesclada com toques que não seguem regras rígidas, mas que fizeram da casa um abrigo, uma toca, um canto de acolhida, pronto a receber gente e vida.

O ninho se esvazia preguiçosamente. Abre espaço para mais festas, mais reuniões e o recebimento de novos visitantes-integrantes.



4.8.12

No woman, no cry

Esta reforma me traz um novo olhar sobre a espiritualidade. Hoje, tenho certeza de que há alguém lá em cima que gosta de mim. Sem brincadeira, fiquei agnosticamente balançada e, neurótica, que sou, imaginei a qual santo deveria agradecer a graça de estar saindo de casa e me deparar com um burro-sem-rabo com a tabuleta: "Pego entulho - Faço frete", em letras trêmulas e inseguras.
Eu ia ao supermercado e pretendia investigar junto aos homens que trazem as compras se algum retirria a tranqueira que os lambões (os serralheiros) deixaram aqui. Já contava com a ajuda mais que abençoada de Priscila, a faxineira da vez, um doce de menina que trabalha na casa de amigos queridos e faz biscate no fim de semana porque a vida não é fácil, não.
Sem acreditar em minha própria sorte, abordei seu Reginaldo que, imediatamente, tirou quatro sacos de entulho imensos, latas de tinta vazias e a maldita estrutura de ferro do finado basculante.
Tudo, tudo, tudo vai dar pé, já cantavam Gil e Bob Marley.
E vamos à faxina, que na terça-feira recomeça a folia.


3.8.12

A próxima etapa

O novo intervalo da obra é de três ou quatro dias, quando chegará seu Flávio, pintor da família. Nunca tive tantos pintores diferentes na mesma obra. Geralmente, eram apenas um ou dois. Obras sempre têm os homens que as iniciam, fazem besteira, abandonam o serviço, e os que vêm finalizar. Nesta, tive um pintor por canto. Um para a área de serviço, cozinha e dependências. Outro para o quarto de Júlia. Outro para o quarto de Hugo. Seu Flávio, espero, encerrará o resto da casa.
Não é apenas a diversidade de preços que determinou a substituição de equipes, mas o desinteresse deles mesmos em continuarem o serviço.
No meio, o inesperado: Jac me atacou, decici trocar estofados, comprar móveis e substituir a janela. Tudo estava em petição de miséria, mas ainda ficarão mais estofados a serem reformados, além de um banheiro pedindo restauração. E tem as maçanetas. Algum dos incontáveis mistérios desta casa é o perpétuo sumiço de maçanetas. Por que isso ocorre, não sei. Mas há algumas portas que precisam de novas maçanetas.
Duro é pensar que estamos ainda a meio da epopeia.
Meu Santo Stanislau... Eslovenos cantam "Ai, se eu te pego" no Globo Repórter.
Haja poeira...

Direto do canteiro - Dia 32

O serralheiro/vidraceiro e seu ajudante estão aqui. O síndico já se manifestou, reclamando que eles fazem a retirada da janela sem proteção - o que é proibido por norma municipal. Eu desconhecia a norma, não posso discutir isso com o síndico. A proteção que obtivemos foi estender um plástico grosso sob a possível área afetada, um telhado aparentemente bastante sólido, com aquelas telhas que um dia foram de amianto.
Os homens cortam um dobrado para retirar a estrutura de ferro de um basculante que encontramos aqui quando compramos o apartamento, 20 anos atrás. Era a ventilação de um banheiro que ocupava a varanda original. Recuperamos a varanda, iluminando e refrescando a sala, mas mantivemos o basculante horroroso. A ferrugem não o derrotou. O ajudante do serralheiro cortou-se e eu fiz um imenso curativo em sua mão.
Depois de duas horas e meia de peleja, eles conseguem deslocar as ferragens. Daqui a pouco chega a janela nova, simples, que, se eu pudesse, seria em madeira, mas, por praticidade e preço, vem em alumínio mesmo. 
Seu Jorge dá os últimos retoques no quarto de Hugo e vai pintar uma parede no de Júlia.
É o último dia útil de minhas férias.
No meio da tarde, o serralheiro esbraveja. Seu Jorge, o pintor, já acabou seu serviço. Adoramos seu Jorge, boa gente, tranquilo, gentil. Seu Marcos, o serralheiro, não imaginou que o basculante estivesse fora de prumo. Ou melhor, que a parede estivesse fora de prumo. Engraçado que ele fala como se nós, que contratamos o serviço, que não temos ideia de como se constroi qualquer coisa além de castelos de areia na praia, tivéssemos obrigação de prever os erros de construção.

E haja poeira...

2.8.12

Direto do canteiro - Dia 31

O dia promete.
Quase 10 da manhã, telefono para a serralheria para saber a que horas virão instalar minha janela - que deveria ter sido entregue há uma semana, com adiamento para terça-feira e, depois, para hoje. "Ah, ia mesmo, mas o rapaz que instala não veio". Indago, então, quando será feita a instalação. Isso gera uma resposta indignada da atendente, pois não pode me informar nada, já que o "rapaz" não virá. Por que não me avisou sobre a ausência do rapaz? "Ué, estava esperando que ele aparecesse. Ele acabou de ligar pra dizer que não pde vir, não". E quando será o raio da instalação? "Lá pelas 17h, eu aviso". 

Sim, eu sei, existe reencarnação. E todos os que resolvem fazer obras em casa, comprar eletrodomésticos, móveis ou usar os serviços do governo para tirar documentos obrigatórios pagam o carma por vidas passadas. Só pode ser isso.
 
 

30.7.12

Digressões, diretamente do canteirão

Gosto de decoração. Um gosto que só surgiu depois que tive minha própria casa, já que meu quarto sempre foi co-propriedade de minha mãe, que chegou ao cúmulo de colar um poster do Chico Buarque no meu armário. Daí, talvez, venha minha percepção de Chico como um senhor que desperta fantasias eróticas em senhoras. Por mais que hoje eu seja uma senhora, para mim, Chico regula com o Niemeyer. Houve um tempo em que me apropriei de meu quarto, colando posters de artistas de cinema e astros do rock em todas as paredes possíveis. Depois, fiquei sóbria e limitei os recortes a um quadro de cortiça, elemento indispensável aos cafofos adolescentes de então.
Dos sites e blogs sobre decoração adoro os que mostram a casa das pessoas comuns, sem grandes artifícios ou projetos com assinatura de Phillip Starck. Meu amigo Ronny, arquiteto que atua no setor de interiores e faz projetos pra gente acima do meu parco cacife, me contou que está reformando um quarto ao módico preço de 300 mil reais. Caindo na real, gosto de blogs como o Dcoração, que mostra essas casas de quem vive contando os caraminguás. É tão legal que a autora hoje tem coluna em jornal popular.
No fim de semana, fui atrás de camas para meus pimpolhos, já que as deles se acabaram. E aí, encontrei caixotes "paletes", aqueles caixotes de transporte de frutas pra feira, que agora entraram na moda e custam... em torno de 400 reais!!!
Enquanto o Rio vive a fase de hipervalorização imobiliária, descobri um blog sobre apartamentos na Argentina. Não, não pretendo me mudar para Buenos Aires. O que me estarreceu foi perceber o empobrecimento demonstrado na decoração de cada casinha, sempre com móveis velhíssimos, adaptados ao momento. O blog é um encanto, as casas também. A ambientação tem muitos enfeites infantis, típicos da geração que hoje está com uns 35 anos, que "ousa" na imaturidade. Vintage é a palavra de ordem, marcando o constraste da sobriedade de móveis herdados da família com peças de origami. E há deliciosos jardins de inverno, cheios de plantas...
Claro que a gente sempre gosta de conhecer maisonettes de Paris, lounges de Nova York e casas apertadinhas em Londres, mostradas no maravilhoso The Selby, que vive no Brooklyn e percorre o mundo fotografando a casa de pessoas muitos interessantes. O desconjuntado que surge na Casa Chaucha também me fascina. Porque a casa da gente precisa de combinações nem sempre deliciosas. Precisa ser meio embolada, antiquada, contemporânea. Tudo junto e misturado.
E começa a quarta semana de trabalhos.
Na próxima, deve vir mais outro pintor. O seu Célio, o primeiro, que desapareceu, ligou no fim de semana pra dizer que a avó morreu, razão de seu sumiço. O atual, seu Jorge, é um doce, mas muito lento. Seu Flávio chega na próxima pra pegar a sala. E meu quarto deve iniciar a reconfiguração esta semana também. Ai, ai... tô mais desconjuntada que milongueiro porteño.

A casa ainda está mais ou menos assim. O amarelo das paredes deve ser substituído por um tom mais suave ao fim dos trabalhos. E Gal poderá passear tranquilamente entre as plantas, como gosta.

26.7.12

O desvario começou

Vou pintar a sala.
O problema não é o custo. O problema é transportar quase três mil livrinhos bem acondicionados em muitas estantes para outros cantos da casa. Porque livro tem esponjas dentro. Eles absorvem poeiras, traças, ácaros.
Uma veneziana clama por substituição. Está presa por pensamento positivo.
Começo a temer a falência pós-reforma.
Maldito Jac.


25.7.12

Canteiro de obras reaberto - Dia 24

É, deveria ser o 24º dia. Mas houve um longuíssimo intervalo de mais de uma semana. Perdi as contas, mas já vai pra um mês que a balbúrdia reina em meu desalinhado lar. Seu Jorge, o pintor, apareceu e começou a mexer no quarto dos meninos. Vai levar uns quatro dias, já avisou. Depois será a vez do meu quarto, o coração da casa. E, inoculada por Jaques/Jack, doravante aqui denominado por Jaque, é bem provável que eu mande pintar a sala também.
Ontem, fiz muitas contas. O custo é alto, mas ainda pagável, graças à devolução do Leão e à antecipação do 13º. Depois, a penúria me espera, mas de casa renovada.
Claro que também ressurgiu o Tiago, o eletricista. E vamos ter que dar uma remexida nos fios. Tem uma verdadeira teia de fios retorcidos, ressecados, parecendo arvoredo de caatinga, sob tetos e paredes. Jaque determinou uma revisada nisso.
Os olhos já estão doloridos, lacrimejantes e secos, por mais paradoxal que isso pareça. Nariz entupido e cabeça doendo. A poeira já impera, mas os ácaros de livros remexidos também se faz presente.
Ah, claro. A máquina de lavar quebrou.

23.7.12

Ainda no intervalo, com Jack ou Jacques

Talvez na quarta seu Jorge venha pintar algum cômodo desta residência. Enquanto isso, inquieta, peguei eu rolinhos e tinta e decidi pintar de branco uma estante que já passou por alguns proprietários. Chegou aqui verdinha, aposentada após anos carregando livros e brinquedos do filho de meus compadres. Antes, pertencia a um tio de meu amigo. Esse tio (que não sei se ainda é vivo) é daquelas pessoas referência na família dele. Na minha havia as "Mimitas". As Mimitas eram as filhas de Dona Mimita, amiga de minha avó. Não existia uma só conversa na família em que as Mimitas não fossem mencionadas. Porque todo mundo era conhecido, amigo, parente ou havia cruzado com as Mimitas uma vez na vida. Um dia, fui falar com um advogado indicado por uma tia. E não é que o cara era neto de Dona Mimita, um legítimo Mimito.
Enfim, a estante do Tio Mimito (não me lembro do nome dele, mas ele deve ter conhecido, namorado ou convivido com as Mimitas algum dia, porque isso acontece com toda a humanidade) acabou no quarto de Júlia. De verdinha, virou laranja, há cerca de dez anos, quando pintei uma parede da sala de telha. Agora,  transferida para a sala,  precisa de outra cor, mais adequada ao cenário. Me empolguei e comecei a pintar. Muito mal mesmo. Passa por pátina mal feita.
E enquanto a pintura não recomeça, eu contraí o Jacques, um estranho vírus que ronda quem faz reforma em casa, conforme minha amiga Rosana Lourenço havia me advertido. Os sintomas se manifestam quando o reformador olha algo que nada tinha a ver com o plano inicial e pensa"já que estou pintando tudo, que tal trocar o estofado do sofá?". Foi o que me aconteceu. Primeiro, decidi trocar uma janela - que há 20 anos merecia descansar no lixo, coitada. Agora, em vez de comprar outro sofá, resolvi reformar a cacarecada aos poucos - duas cadeiras de balanço que eram de minha mãe, umas cadeirinhas austríacas, outro sofá.
Mas Jacques/Jack não me containará mais. Senão, acaba virando o Estripador de minhas parcas reservas financeiras...


21.7.12

Intervalo

Eu havia me esquecido que toda a reforma em casa tem um período de interrupção. Até que estamos nos virando bem durante o intervalo, recuperando as forças perdidas para a alergia à poeirada. Hoje, vi meu novo sofá - que estava embalado ainda. Não vale a pena deixar fechado, já que o forrobodó só deve recomeçar - se isso acontecer mesmo - na quarta-feira da próxima semana.
Mais um pintor consultado e... só terá tempo de me atender em duas semanas. Eu vou mandar esses meus filhos esquecerem os sonhos profissionais e começarem agora a se especializar em reformas. O povo está super-ocupado...
Para me distrair, trabalho durante as férias. E posto fotos do Jeff Bridges. Por quê? Ah, porque a Marina W postou uma foto dele novinho - e a gente só se lembra dele agora, na fase Kris Kristofferson. Mas Jeff Bridges já foi um gato, antes de ser o "Dude" do Big Lebowski. Continua uma figura simpática, embora pareça ser quase da mesma idade que o irmão, Beau, uns oito anos mais velho.











18.7.12

Sem canteiro, só caos - dia 17

Aquele momento em que a relação está complicada já começou. Talvez porque eu quis adiantar as coisas e chamei os artistas-pintores para arrumarem o quarto da Júlia, enquanto seu Célio voltava para uma obra já contratada, que duraria 10 dias, mas que poderia acabar antes desse prazo. Embora ele tenha me garantido que estaria hoje, aqui, às 8h. Não está. São 9h27m e ele não está!!!! Já telefonei. Mas o telefone está fora de área.
Liguei para dois Jorges. Um, novo, pintor também. Deve ser meu próximo. O outro, meu antigo empreiteiro, que só pode "quebrar seu galho, D. Olga, na virada do mês". Seu pessoal está totalmente ocupado até a "virada do mês". O que me leva a crer que realmente o futuro da economia está na reforma e construção de imóveis. Vai chamar um bombeiro hidráulico para ver o quanto terá que tirar das aplicações financeiras e ter o sifão de uma pia trocado...
Então deve ser assim mesmo. Uma relação breve e desgastante com diversos homens, cada semana um novo, estendendo-se indefinidamente por um bom período de meses. Foi assim em outras reformas, por que não seria agora? 
Melhor tirar férias decentes e deixar a obra acontecer quando for possível.
Entrei no estágio do conformismo. Zen stress. Tomara que dure. 

14.7.12

Diário do mezzo caos - dias 11, 12 ...

Perdi a conta. Acho que a obra começou na outra terça-feira. Hoje é o segundo sábado. Então estamos no 13º dia... Ou foi na terça....
Enfim, já tem é tempo.
Meu armário parece cenário de um programa deprimente de um canal a cabo, Os Acumuladores. Aqueles obsessivos-compulsivos que vão guardando um monte de tranqueira. Cada parte da casa em que a obra é concluída precisa receber o que fica guardado nos outros cômodos, que entrarão na faca, digo, na reforma. E, no afã de dar algum sentido lógico à bagunça, o jeito é enfiar tudo nos armários. Lógico que não cabe.
Acho que agora eu odeio obras.
Os artistas que cobram 1000 reais para pintar um quarto - e fizeram pela metade um daqui de casa - encerraram sua participação. Ficou razoável. As dependências de empregada estão fraquinhas. Júlia vai encarar os pinceis para pintar uma de suas paredes de salmão. Ainda faltam banheiros, corredor e dois quartos. Não me animei a encar a pintar a sala.
Estou de férias assalariadas após sete anos na informalidade/autonomia. E vou passar aqui, comandando a obra? Acho que vou interromper o furdunço esta semana e só retomar em agosto, quando voltar à labuta. Obra em etapas. Uma ideia...
Já temos interfone funcionando. E luz no quarto do Hugo, onde o Poltergeist sempre se manifesta, estourou, desta vez, toda a fiação do ventilador de teto.  O quarto permaneceu às escuras algum tempo, na tentativa de acalmarmos o espírito inquieto que vive por lá. Besteirol à parte, este edifício tem 72 anos e a fiação do apartamento era de pano, quando chegamos aqui, duas décadas atrás. Sempre que se tocava a campainha da porta acendia-se a luz da primeira sala (são duas, uma é um vestíbulo robusto, onde estão piano e muitos livros; tentei batizar de Sala de Música, mas o pernosticismo nunca pegou - virou sala do piano, ou, mais popularmente, "lá no piano"). E sempre acendia vagarosamente, evoluindo da penumbra para o brilho. A razão? A mesma fiação abastecia os dois pontos de energia elétrica. Outro fenômeno era que, ao bater a porta do quarto dos meninos (e aqui tem muita corrente de ar, é um bate-porta infernal), acendia-se a luz do corredor. Isso porque cada tremelique das portas reverberava na fiação.
Aos poucos fomos isolando os fios, mas, vez por outra, o espírito inquieto tenta nos assombrar. Acho que é meio Vadinho, da Dona Flor, meio Zé Pelintra, mas mais jovem, mais serelepe. Na Casa do Califa, livro que relata a reforma de um casarão em Casablanca por uma família inglesa de raízes asiáticas, a obra só vai pra frente depois que exorcizam o prédio todo... Será?
Os terceiros pintores contratados estão atrasados. Acho que terei alforria neste sábado...






12.7.12

Do canteiro - dia 9

Os olhos estão secos. Estou saindo para o trabalho, penúltimo dia antes das férias. Hoje vem um eletricista, colega de trabalho, recomendadíssimo. Vai religar o interfone, puxar energia em diversos cantos da casa, instalar novos pontos para tomadas.
Os pintores já chegaram e eu nem quero olhá-los nos olhos. Até amanhã preciso decidir se chamo o primeiro, que, olhando agora o serviço encerrado dele, na cozinha e parte de serviço, faltou capricho no arremate.
Preciso encontrar um carregador de celular no caos de tralhas que se espalham por todos os cantos da casa. A vontade é me livrar de metade das quinquilharias que acumulei na vida. Eu me lembro que, quando saí da casa dos meus pais para meu primeiro apartamento, já havia dois cômodos de quinquilharias, em que não entrava. Sempre tive uma "caixa de recordações", dezenas de cadernos de diários, guardo uma montoeira de agendas usadas em outros anos... Ainda bem que as novas gerações daqui de casa não têm esse amor por lembranças.
A labuta me aguarda!!!

11.7.12

Direto do front, digo, do canteiro - Dia 9

A desolação toma conta de meu ser. Passo em casa para almoçar, feliz porque havia chegado meu novo sofá da sala, pequenino, modesto, Tok & Stok mesmo, e, ao abrir a porta me deparei com a poeira. Muita poeira. Poeira demasiada para uma obra no quarto láááá atrás. Poeira sobre os livros da sala, sobre os móveis, sobre os gatos, sobre tudo.
Abri o caminho entre a nuvem que chegava à sala, seguindo o som de serra elétrica que não esperava ouvir em casa. Avançando pelo corredor, descobri, na soleira do quarto em obras, seu Augusto lixava, com uma lixadeira elétrica, a porta. Sem se importar em  isolar o corredor com um dos 10 mil metros de plástico preto que me pedira para comprar e que ele não está usando.
Agradeci ao Altíssimo a tranquilidade zen de meu filho, que recebeu o sofá novo e nem pensou em retirar a embalagem plástica de proteção. Pensei em sentar-me à beira da cama e chorar, mas resolvi perguntar a seu Augusto e a seu Mário, os pintores pirados, se haveria mais produção de poeira no ambiente. Os dois, muito vexados, reconheceram que falharam ao não isolar o local do crime do resto da casa, argumentando, no entanto, que bastava um buraquinho no plástico para a poeira invadir qualquer espaço livre.
Não respondi, suplicando apenas que ignorem as imperfeições na madeira. Que não pintem a madeira. Que deixem a vida continuar.Porque há dois mil livros na sala, todos cobertos de poeira branca. E quem vai limpar sou eu.





10.7.12

No Canteiro - Dia 8

Tenho poeira até  na alma.
Os homens lixaram as paredes, emassaram, estucaram. E um pó branquinho circula pela casa. Meus olhos estão secos, a respiração curtíssima.
Já não gosto mais de obras...
A faxineira reapareceu com seu marido, que também é faxineiro e diz que conhece alguém que pinta paredes e faz instalações elétricas muito bem no prédio onde trabalha, sem cobrar 1000 reais por cômodo.
Nem vi os pintores hoje. Acordei Hugo, que fora dormir às 4 da manhã, comemorando com os amigos os 20 anos completados ontem (ai, meu Deus, o tempo tem a velocidade da luz...), pedi que esperasse os pintores e fui trabalhar, sem retornar para casa o dia todo. Dez horas depois, encaminho-me para a crise alérgica noturna.

9.7.12

Do Canteiro - dia 7

Da série 'Quem mandou morar na Zona Sul?": os pintores que já havia contratado para a obra de um dos quartos - que precisa tirar papel de parede, refazer um reboco, emassar, aplainar, pintar -, deram orçamento para os outros quartos. O quarto já em execução, o mais trabalhoso, custou R$ 600 de mão de obra. Os demais, que são um pouco maiores, porém não exigirão tanto trabalho de alvenaria ... R$ 1000 cada!!!
Agradeci, penhoradamente. E procuro, desesperadamente, o pintor anterior, que cobrou exatamente a metade por cada quarto.
Será que eu tenho cara de abastada?

8.7.12

Do canteiro - Dias 5 e 6

Não teve obra nos últimos dias, chegou o fim de semana, o que não significou descanso, ao contrário, já que no sábado foi o dia do maior evento promovido lá. De onde só saí depois das 23h, carregando uma tina com 5 quilos de salada de batata e mais uns três quilos de salsicha. Todo mundo ganhou salsicha ou salsichão. Sobrou muito, ia pro lixo e... bem, vou distribuir aqui entre os pintores que chegarem amanhã, porque não há colesterol que se mantenha incólume com tal dieta.

Comprei um sofá novo. Chega na quarta. Simplesérrimo.

Devido à penúria dos últimos tempos, curei-me do consumismo compulsivo compensatório das frustrações. Consegui entrar na Uncle K em liquidação e APENAS observar as bolsas (maravilhosas, claro). Não comprei nenhuma e tinha dinheiro para gastar. Isso me dá uma satisfação imensa. Desprezo os apelos desesperados do capitalismo selvagem. Um dia, quem sabe, conseguirei resistir da mesma maneira à comida em geral...

Por estar tão alienada do universo consumista, espantam-me os preços de certos artigos. Uma almofada a 180 reais numa liquidação.  É o que gasto num supermercado em dez dias, mais ou menos. Há anos comparo os preços com o dos itens básicos de sobrevivência. Uma almofada não pode valer a minha conta de eletricidade mensal.

6.7.12

Mantra


De hoje em diante vou modificar o meu modo de vida.


Quem sabe se, repetindo à exaustão, eu consiga me convencer, me converter e cuidar mais de mim...


Do canteiro - Dia 4

Acho que odeio o pintor. Não arrasta um móvel para o lugar e acha que poeira em chão sai por obra e graça do divino Espírito Santo. Há pegadas brancas por toda a sala.
Com o cheiro de massa corrida se alastrando por tudo quanto é canto, arrisquei-me a comprar um salgado na padaria que chamamos delicadamente de "ruim". Tem outra no quarteirão que identificamos como "a boa". A ruim não faz só um dos piores pães do Rio de Janeiro - e olha que esta cidade se notabiliza pela péssima qualidade das panificadoras, com honrosas e maravilhosas exceções para confirmar a regra. A Ruim faz também os piores salgadinhos do mundo. Há pouco tempo, mudaram os donos, gerentes, empregados. Só mantiveram a tradição que poderia lhes conferir o título de "a pior do bairro".
Hoje ainda tenho que comprar tintas para que a nova equipe de pintores comece na segunda-feira.
O atual, não sei se retornará, já que tem outros compromissos na próxima semana e eu não quero me apegar a mais ninguém...
Estou mal-humorada. Pensava que ficaria feliz com a obra. Não estou. Não hoje.