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30.11.17

Sobre fome e tristeza

Como boa parte dos habitantes do planeta, vivo para pagar dívidas e serviços. Sei que conseguirei saldar tudo em algum momento, nem que para isso me desfaça do patrimônio conseguido com sacrifícios e trabalho. Começar de novo é difícil, porém não impossível para mim. Meus problemas são equilibrar contas, e, vez por outra, passar pelo constrangimento de ter luz ou gás cortados por falta de pagamento.
E as pessoas que não têm como se constranger? Pessoas que só tiveram o azar de não serem frutos do mesmo acaso biológico que eu. Pessoas que tentam buscar algum oxigênio na miséria e que perdem um direito social cortado porque precisamos, sim, arcar com salários e benefícios altíssimos para apenas uma parcela ínfima da população. Pessoas que vivem à míngua, completamente ignoradas pelo Estado.
Foi para isso que depuseram Dilma Roussef.
Não pela corrupção, que, esta sim, sobreviverá e alimentará os poucos de sempre.
Enquanto se isentam de impostos os bancos, lutam para encerrar programas "populistas", retirar direitos trabalhistas e reformar a Previdência.




Mas isso não interessa a Simone e a seu filho. E ninguém se interessa por Simone e por seu filho. Ela, uma folgada, que viveu às custas da gente de bem, terá que se virar para alimentar o garoto. Ou morrer, né? De fome e de tristeza mesmo.

11.6.16

O estupro nosso de cada dia

Uma garotinha a caminho do colégio se assusta ao ver um homem com a braguilha da calça aberta, balançando o pênis e rindo para ela.
 Duas mulheres se juntam a um grupo de desconhecidos, uma família com crianças, fugindo de um desconhecido que as persegue por salas de exposição vazias, num dia de semana, no Museu Nacional. Moça alveja com a ponta do guarda-chuva o pé de seu vizinho de poltrona, no cinema: o homem, que "passava a mão" na coxa dela, sai da sala sob os gritos de "tarado" da plateia.
Jovem repórter atravessa a Avenida Rio Branco para chegar à Cinelândia, ao entardecer, e leva um beliscão na virilha por um desconhecido que vem em sua direção.
Colega acaricia barriga da grávida, dizendo ter tesão por gestantes. 
Oftalmologista abraça paciente e a força a cumprimentá-lo com beijos na primeira consulta. Dermatologista acaricia mãos de paciente. 
Amigo da família faz carícia "esquisita" na menina, que não conta para os pais, achando que levou a mal uma simples demonstração de afeto.
Homem persegue mulher no estacionamento de shopping, enquanto se masturba.
Em 55 anos de vida, algumas lembranças desagradáveis que compartilho com outras vítimas do desrespeito. Algo comum a tantas outras mulheres.
NADA JUSTIFICA O ASSÉDIO, O DESRESPEITO, O ESTUPRO.

12.5.16

Geração Coca-Cola


A minha geração, os nascidos em 1960, estava na primeira infância em 1964. Éramos crianças quando os Beatles estouraram, muito pequenos para aproveitar Woodstock, ou entender maio de 1968. Crescemos no Brasil do "milagre", um tempo em que perseguições políticas eram mencionadas cautelosamente pelos pais, que proibiam a gente de cantar "Eu te amo, meu Brasil", mas não deixavam de torcer pela Seleção em 70. Não lutamos pelo feminismo, nem contra a ditadura. Dançamos em discotecas, comemoramos a Anistia e pedimos Diretas Já. Assistimos à liberação das peças, filmes, das artes outrora censuradas. E aí vieram eleições diretas. Não fomos caras-pintadas, já éramos adultos desesperados com o confisco das poupanças.

Virou o milênio e acreditamos que poderia haver uma mudança. Houve. 

Como será o amanhã? Parecido com o que conhecemos nos anos 90. E pior. 

Ainda bem que existe um depois de amanhã.

25.2.16

O caos nosso de cada dia.

O brasileiro acha que desenvolvimento é ter rua numerada. Criaram Brasília com essa lógica, que, felizmente, não se espalhou para outras cidades. Volta Redonda também tem esse americanismo. Ganha em lógica (?) e perde em poesia. 
Agora, a muy heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro troca itinerários e nomenclaturas pelas quais os ônibus que cruzavam o balneário eram conhecidos. Sempre houve o 125, o 410, o 435, o 750. E os que eram chamados, pelos mais antigos, de "Gávea-Leme", o 474, que fazia Jacaré-Copacabana, tudo muda de numeração e de nome. Viraram Troncal 1, 2, 3... conforme os novos trajetos, que a gente também desconhece - o que faz sentido numa vida tecnocratizada. O Rio merece.

26.10.15

Um Enem pra mexer com a cabeça dos caretas


Ao usar palavras de pensadores como Simone de Beauvoir, Santo Tomás de Aquino e David Hume nas provas, além de pedir uma reflexão sobre a violência contra a mulher no Brasil, os organizadores do Enem levaram os jovens candidatos a uma vaga na universidade a refletirem sobre a vida em geral.
Uma guinada em direção ao raciocínio, ao entendimento, um chamamento para o respeito a quem está ao nosso lado. Sem qualquer tipo de reverência à juventude, nem desprezo por essa imensa massa que é adulada pela publicidade e desprezada pelo grande capital, que só a vê como consumidora de produtos supérfluos.
Os conservadores de plantão não resmungaram contra Hume ou Santo Tomás, mas viram esquerdismo na proposta de discutir o pensamento de Simone, a primeira pessoa a fazer um registro sobre a condição feminina no Ocidente, incensada pelas feministas, antes mesmo de aderir ao movimento. Uma mulher que escolheu viver de forma diferente da convencional, em sua época, e ainda hoje, que não formou uma família biológica nem se casou oficialmente com quem amou.
Será que essa senhora afeta a estabilidade da família brasileira?
Será que o papa Francisco, representante da caretíssima Igreja Católica, ameaça as famílias ao dizer que a maternidade nada tem a ver com o estado civil da mãe, para uma jovem que não conseguia batizar seu filho por não ser casada?
Será que manter amantes ocultos de filhos e cônjuges garante a solidez da instituição da família?
Será que impedir o uso de medicamentos contraceptivos - e não abortivos - vai fortalecer a família?
Podemos dizer que um árabe ou um mórmon polígamo têm famílias disfuncionais?
O que é uma família, senão um ajuntamento de pessoas que crescem juntas?
O que é uma sociedade desigual, que fala em apoio familiar, mas nega qualquer tipo de garantia de saúde ou educação a seus membros, tratados como alimentadores de um sistema de compras destinado ao enriquecimento de poucos?
Pensar me faz bem. E pra um monte de meninos que não são estimulados a isso, melhor ainda!!!


11.9.15

O nojo

Mulheres paulistas vêm fazendo uma série de manifestações contra homens que aproveitam os vagões hiperlotados do metrô para se encostarem nas passageiras. Na juventude fui vítima desses nojentos - e não só no transporte. Naquela época, existiam os "mãos-bobas", homens que acariciavam mulheres dentro dos cinemas. Apenas uma vez revidei à altura essa agressão. Estava com um amigo, assistindo a Ran, do Kurosawa, quando senti a mão invisível (a gente nunca conseguia ver, os caras tinham uma técnica espetacular) tocando minha coxa. Eu devia ter uns 20 anos, já bastante escolada em me esquivar desses tarados de cinema, mas resolvi dar-lhe uma lição. Deixei que o cara se aproximasse o suficiente para eu mirar o peito de seu pé e tacar nele a ponta afiada do salto do meu sapato. O homem se levantou gemendo, eu falei alto: "Vai, seu tarado, foge", meu amigo quis correr atrás, dois rapazes fizeram menção de seguir o cara, que desapareceu da sala de projeção, murmurando "não sou tarado, não".

Mas era, sim. Como era um que resolveu se masturbar, a meu lado, numa sessão de Festa de Família. Desisti de ver o filme, consegui outro lugar na sala lotadíssima. O tarado se levantou atrás de mim, mas acabou deixando o cinema. E eu fui ver os tarados do filme. Moral das histórias: existem tarados cult.

Até pouco tempo, eu achava que só tinha sido vítima de assédio apenas por desconhecidos. Assistindo a um programa na TV que tratava do abuso sexual a crianças por parentes ou conhecidos, senti um tremendo mal-estar. E me veio uma recordação que, por anos estava camuflada por mim mesma. E escrevi o texto que segue abaixo.

Enojada, a mulher entende, com quase quarenta anos de atraso, que a gracinha feita pelo amigo da família era abusiva. Como reconheceu o abuso? Depois de fechar a cara pro adulto, jamais mencionou o fato a ninguém.  Nem aos vigilantes pais, sempre em estado de alerta quanto aos possíveis "desencaminhadores" - se falava assim, então - da adolescente.

Não houve bolinação, era só "brincadeira". Uma cosquinha na palma da mão da menina, um riso idiota, a pergunta: "Você sabe o que é isso?", e o semblante assumindo um ar severo, diante da seriedade do "Sim" da garota. Ele soube reverter a situação. Parecia que ela imaginara tudo, que ele realmente estava brincando - e que ela não entendera nada. 

Passar décadas sem perceber o abuso é uma forma de se defender da estupidez, imaginando que "levou a mal" uma brincadeira. Esse abuso está no carinho inconveniente do colega de trabalho, no convite injustificável do chefe para jantar a sós, na necessidade de inventar desculpas ou namorados fictícios para escapar dessas insistências. Tudo reconhecido, a reação é discreta para não constranger o homem, que "apenas avançou o sinal", como é socialmente esperado dele.
Ao lado de boa parte das mulheres,  eu me calei diante dessas situações.  Ouvindo uma história parecida com a que vivi e fiquei atônita com a sensação de mal-estar que experimentei. E me lembrei desse homem, inteligente, agradável, que, repentinamente, parou de frequentar nossa casa. Só agora compreendi que ele temeu ser desmascarado e, por isso, se afastou de nosso convívio. Mas teve a cara de pau de comparecer, convidado que foi, a meu casamento, acompanhado da mulher.


Eu permaneceria calada se não visse a importância de ajudar algumas mulheres - e quem sabe meninos que também sejam vítimas de situações semelhantes - a reconhecerem o que é abuso. Ninguém deve se calar ou se sentir culpada diante da "brincadeira" esquisita. Se é constrangedor, se é esquisito, não é natural. Se você jamais faria isso com outra pessoa, publicamente ou não, está errado. Se não pode ser comentado com ninguém, se incomodou, é abuso mesmo. 

Ah, sim: a maioria dos homens não age dessa maneira, não. Só os recalcados. 


29.4.15

Reflexões em tempos de esvaziamento de ninho.

Casa é uma construção diária. Casa precisa contar a história de quem vive nela.

Amo o programa "Morar", sucessor do "Casa Brasileira", ambos do Alberto Renault, que passam no GNT. Claro que lá só entram belas casas impecáveis. Também adoro o o site The Selby, do fotógrafo e ilustrador novaiorquino Todd Selby, que, em 2008, começou a publicar imagens das casas de seus amigos.  Neste estão aqueles lares com jeito de habitados, desarrumadinhos.

Gosto dessas fotos de casas desmazeladas. Cresci em ambientes muito organizados, a regra dos lares na minha infância. Mas com as mudanças sociais brasileiras - leia-se: o escravagismo acabou e as empregadas domésticas cobram caro por seus serviços - , cada vez mais, as casas brasileiras perderam aqueles ares revista de decoração.

Hoje, olho minha sala eternamente fora de ordem, entupida de livros despencando pelas prateleiras, sofás arrebentados pelas garras dos gatos, mantas esquecidas por quem assistiu a filme até tarde, bolsas de compras jogadas sobre algum móvel, plantas invadindo todos os espaços possíveis. Muita informação, como já disse um amigo querido, arquiteto de interiores requintadíssimo. Estilo boêmio-romântico, classificou outra amiga. Eu fico feliz com as duas definições - a bagunça nossa de cada dia mesclada com toques que não seguem regras rígidas, mas que fizeram da casa um abrigo, uma toca, um canto de acolhida, pronto a receber gente e vida.

O ninho se esvazia preguiçosamente. Abre espaço para mais festas, mais reuniões e o recebimento de novos visitantes-integrantes.



24.7.14

Ariano

Uma frustração na vida: nunca entrevistei Ariano Suassuna. 
Mas assisti a uma palestra dele, antes das aulas-espetáculo. Eu era muito novinha, acompanhei meus pais a um colégio na Rua Ipiranga. Ele ia falar sobre religião. Falou. Mas também falou sobre futebol, encenou um jogo inteiro, contou a história de amor de seus pais, levou o público às gargalhadas.
Depois, como todos, li/vi "O Auto da Compadecida", "O Santo e a Porca". E acompanhei as comemorações por seus 80, 85 anos.
Queria comemorar os 90.







Agosto antecipado. 

22.3.14

A geladeira é 30 litros menor que a outra. Faz sentido essa frase? Bem, a capacidade da droga da geladeira é menor. Mas a outra tem que ser descongelada, é um inferno.
Acho que manterei as duas monstrengas.
E só posso ligar a nova depois que comprar um benjamim de três pinos, porque a maldita tem plug de três pinos, ao contrário dos últimos eletrodomésticos que acabei de comprar (máquina de lavar roupas, TV e fogão). Todos têm dois pinos. O único a seguir o maldito padrão brasileiro é o da geladeira.
Fazer o quê? Esperar o eletricista,que disse que vinha hoje.Mas vai me dar o bolo. Eu sei. Não será a primeira vez. Nem a última.
Ah, vida moderna.


21.3.14

Sempre achei que deveria limitar minhas compras pela Internet a objetos pequenos. Em vista dos alucinantes preços de eletrodomésticos, que sofreram bons aumentos depois de dezembro, e do estado de decomposição da geladeira que mal nos serve há 13 anos, optei por encomendar uma Cônsul, do Ponto Frio, pelo site. 
Chegou uma semana antes do dia marcado. E, claro, não passa pelas portas exíguas de meu apartamento de 71 anos. Porque era assim: construíam um imóvel com pé direito de 3 metros e cômodos amplos. Entrar nesses cômodos era para gente miúda, objetos pequenos, tudo esmirradinho.
Então, tiramos as portas da sala e da cozinha. A geladeira passou pela primeira. Pela segunda, só se tirar a porta da própria geladeira, o que ocorrerá amanhã, quando vier a assistência técnica e eu pagar módicos 130 REAIS por um serviço que deverá tomar algo em torno de vinte minutos do técnico. E não dá pra fazer por conta própria. Acaba com a garantia, além do risco de desmantelar os contatos elétricos.
Aborrecimento que ainda compensa, financeiramente, já que o mesmo modelo custa, em média, 35% mais caro nas lojas físicas, e não evitaria o dissabor de ter que chamar os técnicos pra retirarem a porta etc e tal. 
Ah, vida moderna...

10.2.14

A dor da gente não sai no jornal



A morte de Santiago Andrade, o cinegrafista da Band, comove a todos os jornalistas que acompanham as perdas de tantos colegas nas frentes de batalha. Só que Santiago não foi cobrir uma guerra, mas uma manifestação de rua. Não é possível que alguém saia de casa para trabalhar e seja morto por um rojão - essas porcarias já deveriam ter venda proibida há muito tempo. 
E por mais que eu apoie qualquer manifestação, quem leva um troço desses pra rua quer machucar alguém. Então, seja de que lado estiver, que esse manifestante responda por homicídio. Doloso, não culposo.

4.2.14

O pelourinho é aqui

Uma cidade à beira-mar, de temperatura quente a tórrida, atraente para turistas e para os que buscam sobreviver na megalópole, sempre terá desigualdade social. O que não se concebe é que permaneçam ranços do ódio escravocrata, do racismo, da xenofobia, do isolamento, da vergonha que é o desrespeito a qualquer ser humano, cumprida à risca pelas autoridades policiais de qualquer etnia.
Prender um rapaz nu a um poste? Com uma trava de bicicleta? Não existe outra maneira de impedir a fuga de um ladrão?
Que vergonha de tudo!

12.12.13

All that gas

Há anos, o gás natural entrou no Rio, com toda a força. Na minha casa, estourou um fogão Brastemp velho de guerra, que sobrevivera por quinze anos, firme e forte. Não depois do gás natural, que estilhaçou toda a porta de vidro do forno. Comprei outro, baratinho, um Continental, modesto, sem acendimento automático. Durou uns quatro anos, mas já tinha substituído todos os acendedores, que eram queimados pelas chamas. O vidro do forno também estilhaçou-se. Depois, começou a se romper.
Há duas semanas, comprei um fogão simples, da Brastemp, não tão barato assim. Em quatro anos, os fogões aumentaram muito de preço, com ou sem IPI. Então, chamei a empresa para fazer a conversão de gás de botijão para encanado. O técnico, um homem muito gentil mesmo, coitado, ofereceu-se para fazer a instalação, o que seria caro, porém daria uma maravilhosa garantia ao produto. E não é que ele arrebentou a canalização de gás?
Imediatamente chamei a CEG, que lacrou meu relógio por causa do escapamento. Consegui que um gasista fosse ver o estrago no dia seguinte. Telefonei para a autorizada que, ontem, dizia que pagaria em dinheiro meu prejuízo. Hoje, cadê o gerente da autorizada?
Liguei pra Brastemp, registrei o caso e, em 72 horas úteis deverei ter um retorno da reclamação.
É dura a vida de consumidor no Brasil.
Ah, sim, só amanhã a CEG vai religar meu gás. As 72 horas inúteis de banho frio e no sanduíche, essas não têm ressarcimento.


23.10.13

BBB

Beagles, biografias, black blocks... ah, BBB pra mim são Bach, Beethoven e Brahms. O quarto B são mais quatro. Beatles. E basta!


20.3.13

Não vale o escrito

Um vestibulando escreve receita de miojo na prova do Enem e ganha nota classificatória pelo deboche - que o rapaz, já na Faculdade de Engenharia, informou ter sido apenas uma maneira de provar a ineficiência dos que corrigem as provas. Outro concorrente, que cursa Medicina, usou o hino do Palmeiras para encher linhas e linhas de uma redação fraquinha também. Outros candidatos fazem erros de grafia crassos e têm nota máxima.

Antes de me exasperar com a falência da Educação brasileira, deixo claro que os dois brincalhões são universitários que se comportam como boa parte da classe média brasileira. Agiram igual a menininhos, quando deveriam enfrentar as consequências de suas atitudes imaturas. Eles afirmam que pretendiam mostrar o descaso dos corretores das provas, embora, aparentemente, apenas preencheram o número de linhas necessário para que as redações passassem por examinadores. Por que algum estudante seria tão abnegado a ponto de perder um dia de folga para fazer uma prova? Por amor à Educação?

Deveria haver alguma exigência, alguma dignidade ao tratarmos de língua, de ensino, de conhecimento. Mas não há. Existe a superficialidade, a informalidade, o jeitinho que domina e mediocriza nossas vidas.Se a língua é dinâmica, esses rapazes não a transformam, mas apenas a ignoram. Pior que estudantes errarem pavorosamente na escrita é termos professores tementes a alunos, de tal maneira que fazem qualquer coisa para evitar a reprovação dos meninos. Não se ensina, nem se exige conhecimento. Tremo em imaginar que o pessoal das exatas também faça vista grossa para erros de cálculo que podem botar em risco as vidas de quem entrar em prédios mal projetados, por exemplo.

Brigada anti-PT/PCB/socialistas/comunistas/anarquistas/esquerdistas & Cia, nem se anime! Isso não é culpa do governo atual, não. É culpa de um desprezo absoluto com a educação e com a cultura no Brasil, que vem de administrações anteriores - e que a atual tem mantido, diga-se a verdade. Expressar-se bem é pedantismo. Qualquer tipo de requinte é anacronismo. Isso vale para qualquer campo da vida brasileira, pautada pela informalidade que, num raciocínio ilógico, estaria ligada diretamente à jovialidade, ao culto de um período efêmero da existência.

A desvalorização do professor brasileiro tornou-se uma tradição. Remunerações baixas afastam muitos da vocação de ensinar. A falta de respeito transformou salas de aulas em arenas onde alunos se apresentam mais pelo costume do que por necessidade de aprender. Vontade de aprender? Alguns têm, mas são poucos. Estudar é chato, é maçante. Criamos gerações para as quais o esforço não tem sentido algum. Isso vem de casa? Vem, sim, mas se alimenta da passividade das muitas escolas que tratam os alunos como clientes.

Os vestibulandos que se redimem das molecagens nas provas, afirmando querer chamar a atenção dos corretores, têm argumentação tão pueril quanto a péssima pontuação e acentuação. Eles atestam o vexaminoso estado da educação brasileira. O modelo do Enem é ruim, o modelo de colégio é ultrapassado, o desejo de buscar conhecimento é inexistente? A superficialidade continuará a imperar desde que a sociedade permaneça tendo no consumo e na ostentação seus valores máximos.

(Reproduzidas à exaustão em tudo quanto é jornal, as redações dos jovens comediantes apontam outra necessidade imperiosa nos colégios do País: aulas de caligrafia pra moçada! Caramba, é cada letra de meter medo...)

27.6.12

Em carioquês

Pena que só carioca entenda... Imagina na Copa!

28.11.11

Eu odeio o sistema bancário que aprisiona todos os assalariados em contas e instituições que não nos atendem e só servem para aumentar a pressão, o índice de estresse e os fios de cabelos brancos.

Em algum momento de minha existência, tive uma conta em um banco, hoje incorporado por outro, maior, internacional, imenso. Fechei-a há alguns anos. Recentemente foi aberta uma conta-salário no banco internacional, imenso para mim. Tentei fazer a chamada portabilidade _ ô, nomezinho ridículo _ de meus proventos para outra conta. Não consegui. O banco dá uma senha a cada um de seus correntistas. Esqueci minha senha. Telefonei para reavê-la. Não consegui. Por quê? Porque eles têm cadastrado um número fixo de telefone que não existe mais. Mas que continua constando como meu. Como resolver? Indo à agência, algo que já fiz, pelo menos cinco vezes.
Em tempo, tenho contas em outros bancos, resolvo absolutamente TUDO nos caixas eletrônicos e jamais recebi senhas numéricas desses bancos.
O banco me manda torpedo perguntando se ativei minha conta.
O banco não me dá a senha do cartão por telefone porque meu telefone não é mais o "de final 2428, senhora". Na agência do Santander, da qual sou habituéé, vivo sendo barrada na porta e brigando com os guardas, já que só vou lá porque o banco não me adianta a vida, ao contrário, me atrasa. E muito.
Eu odeio que denigram o nome de Van Gogh, utilizando-o em sua publicidade. Van Gogh não merecia isso. Nem eu usar tal banco, cujo nome apaguei daqui para não fazer publicidade fácil. Odeio o sistema bancário.

20.11.11

Dor

É em momentos duros que este blog retoma seu tema, o da grande arena em que convivemos, nós, os moradores da metrópole.
Fico triste com mortes como a do filho de Carlinhos de Jesus porque essas são as que nos chegam, os assassinatos de gente "conhecida", que nos chocam e se tornam quase tão comuns quanto ter alguém próximo doente de câncer ou dengue. E, claro, sinto a dor da perda de um filho, algo que ninguém deseja ao outro, e que, tragicamente, se torna banal com a violência urbana de hoje se ombreando ao que se praticava na Idade Média.

3.11.11

O que não entendo

Por que a pequena burguesia tem tanta revolta em relação ao Brasil de hoje?
Nossos aristocratas - banqueiros e industriais -, esses comemoram. Em silêncio, como convém à aristocracia.
Um novo bolsão de consumidores emergiu.
Há recuperação do poder de compra e empregos.
A aristocracia se congratula.
Mas os burguesinhos sofrem com a troca de mandatos.
Porque a corrupção continua igualzinha. Só surgiram novos corruptos.
Vez por outra, os aristocratas posam de chocados com a situação da nação.
Chocados com o número de mães solteiras, os casais gays, o consumo de drogas...
Chocados porque seus privilégios começaram a ser usufruídos por toda a sociedade.
Aí, promovem passeatas por aqui e por ali, protestando contra a desordem social.
Não sou das que vêem o Brasil com lentes rosadas. O País continua corrupto, injusto, desigual. Mas há uma pequena parcela da sociedade que não sofre mais com tanta mazela. Ascendeu socialmente.
Engraçado que ninguém sugere à burguesia que se trate no SUS, mas sim ao Lula. Engraçado que essa burguesia jamais se propôs a impedir o sucateamento da saúde ou da educação públicas.
Ninguém reclama do aumento dos intermediários na vida atual: administradoras de imóveis, recreadores em festas infantis, despachantes ou headhunters - "facilitadores" que se impõem no cotidiano.
Ninguém reclama das perdas de capacidades, da dependência dos facilitadores, do acomodamento que se torna subserviência tecnológica.
Vamos botar a mão na consciência e refletir o quanto gastamos com inutilidades antes de resmungar contra a perda do status. Porque só está havendo uma nova acomodação dos nossos papeis sociais. Tem mais gente se igualando economicamente. Tem pobre recuperando a dignidade que a moradia modesta e o trabalho humilde conferiam. É difícil comemorar isso?
Eu não entendo é a vontade férrea de cristalizar a desigualdade como se fosse um direito divino.

6.3.11

De outros carnavais

Em pleno retiro literário carnavalesco - só faço ler, recebendo a brisa do ventilador de teto, num verão, que felizmente, deu trégua ao carioca -, sofrendo por conta de uma tremenda tendinite, evito cair na folia. Fiquei velha, talvez, mas não posso expor meu braço contundido ao risco de encontrões e esmagamentos nos blocos, que frequentei religiosamente ao longo de anos, quando pular na Banda de Ipanema era sair da praia e encontrar a vizinhança cantando marchinhas ancestrais. Adoro bloco, carnaval, música. Mas tenho pavor claustrofóbico de enfrentar multidões ensandecidas, sufocantes. E observar carnaval ... bem, não estou ainda na fase de bater palmas porque sou turista. Continuo sendo representada na fuzarca por meus jovens e audazes filhos.

Um dos sambas-enredos a me encantar, ainda menina, foi "O Mundo Encantado de Monteiro Lobato". Eu tinha uns seis anos, quando foi lançado. Um ano depois, era uma leitora apaixonada por Monteiro Lobato, homem de talentos múltiplos, visionário, arrojado, progressista e... racista. Agora virou pecado admirar a obra de Lobato, que oferece aos jovens o perigo de uma formação racista. Olha, se depender da leitura de Lobato para as gerações X, Y ou Z abraçaram o racismo, podemos ficar tranquilíssimos.
Até eu, encantada que fui por ele, reconheço: o enredo ainda é ótimo, mas a linguagem ficou ultrapassada. Língua muda, a forma de escrever, de se dirigir ao leitor, precisa ser atualizada, sim.
A garotada que gosta do "Sítio" sequer abriu "Reinações de Narizinho". Nossos intelectuais precisam, urgentemente, compreender que as novas gerações não lêem muito, mesmo gostando de Harry Potter, vampiros e princesas. Preferem assistir em cinema, claro, que é muito mais prático, mesmo retirando o poder de criação do leitor, que pode imaginar a imagem de um personagem totalmente diferente do que o autor concebeu. Esses novos leitores conhecem Lobato pela televisão e ainda associam à música do Gil.
Lobato era racista, sim, igualzinho a muitos homens e mulheres de sua época. Igual a muitos de meus parentes que passam dos 80 anos hoje. Eles foram criados em outro mundo, aquele em que "asneira", "gabolice", "fanfarrão", "folgazão" eram termos utilizados e compreendidos por leitores nem tão sofisticados assim.
Temos a capacidade de separar o criador da criatura, de deixar as críticas ao comportamento do autor não permearem sua obra? Isso é bastante difícil, mas a gente consegue fazer o mesmo com os parentes caretas, retrógrados, reacionários, respeitando as diferenças ideológicas para permitir a convivência pacífica. Que seja igual com o artista, desde que seu trabalho não seja eminentemente catequista - como, tenho certeza - não era o de Lobato.
Sobre este tema eu me estendi no Estantes Cariocas, aí ao lado.
No mais, Evoé, Momo!