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3.3.14

Oscar 2014

Minha única dúvida quanto ao Oscar 2014 era se caberiam todos os mortos no In Memoriam, aquele momento de homenagem e lágrimas aos astros que partiram. Alain Resnais, sempre implicante, morreu na véspera - e não houve jeito de Hollywood incluir o homem que mexeu com dores, amores, traumas e a cabeça de tantos espectadores no clipezinho sem graça. Pior foi a Divina Miss M cantando aquele pavor depois da exibição do vídeo.
Acompanhei o Oscar mais do que bem acompanhada, pelo Facebook, e em casa, contando, como sempre, com o apoio telefônico de minha arguta amiga Solange Noronha, que abriu outra indagação em nossas memórias recentes. Estava Whoppi Goldberg envergando o mesmo traje que Julia Roberts numa premiação de algum tempinho atrás? Estava, sim. Acredito que não fosse o mesmo tamanho, mas o modelito era o mesmo. E Whoppi, irreverente como sempre, cada vez mais parecida com o irmão gêmeo Milton Nascimento, mostrou a deselegância indiscreta das estrelas de primeira grandeza, levando o prêmio Helena Boham-Carter da noite. Mondrongona, lembrando também aquela música "tava andando na rua, uma nega maluca me apareceu..." (agora serei apedrejada pela expressão "nega maluca", ó patrulhas politicamente corretas...)


Claro que existe gente que se fantasia pro Oscar, buscando a originalidade da gótica Helena, que é divertida como Whoopi e brinca com o mainstream. Só que essas pessoas estão mais para Cher ou para Bjork, que, pelas origens na pop music, aprimoraram de forma inigualável o quesito "chamei de mau gosto o que via, de mau gosto, mau gosto". Elas elevaram a categoria cafona ao patamar da fantasia de quem gostaria de estar na Sapucaí.  Não chegou a haver ninguém que pudesse chegar a disputar o quesito, embora alguns casais forçassem a barra para disputar o troféu Helena. Não conseguiram, pelo artificialismo das composições, algo obtido, gloriosamente, por Whoppi.



O troféu Pitanguy que me perdoe ficou para a Liza, que, ao lado dos irmãos, teve de ouvir Pink (com roupa linda, decotão da Trapaça) assassinar um clássico, enquanto homenageavam O Mágico de Oz. Liza, melena azul combinando com o traje, conseguiu  parecer um pássaro azul e lembrar a Bruxa Má do Oeste.


A categoria Gravidez Não é Desculpa trouxe elegantes gestantes como Kerry Washington




e Olívia Wilde.


A Madame Thor, no entanto, decidiu vestir-se como funkeira em noite de gala.


Anna Kendrick já foi apontada como uma das mais mal vestidas da noite por seu indescritível modelito com aplicações, transparências, fendas. Faltou um babado para dar mais volume à composição.




Enquanto Ellen de Generes garantia o leite das crianças no palco, sua senhora, Portia de Rossi se vestia (?) assim. Indefinível, indescritível, inclassificável. Tudo creminho e esburacadinho.



La Blanchett recebeu o prêmio mais acertado da noite, porque ela realmente interpretou como poucos a desvairada Jasmine, engrossando as fileiras das atrizes premiadas depois que passam pela direção de Woody Allen. Mas o vestido cheio de penduricalhos me lembrou um móbile, um abajour, um lustre. Tudo junto e misturado. 




Sally Hawkins, que fazia a irmã de Jasmine. Pois é.



Sim, eles ainda são o casal mais bonito do mundo, embora o chefe da imensa família comece a ficar de cara mais redonda do que a de alguns dos filhotinhos. O vestido da Jolie me lembrou muito decoração natalina, aquela imitação de neve escorrendo dos galhos das árvores de Natal.


Sempre tem essas saias de cortinado que não combinam com a parte superior do vestido. Sempre.


Uma variação do cortinado com vestido de noiva detonado, mesclado com bolo. Resultado: a roupa da bonitinha Kristen Bell, com seu marido todo amassado. 



Goldie Golden Hawn, detentora do Troféu Dona Mariza Letícia. Mas o corpitcho está um espetáculo. 


Na esteira da mãe, Kate Hudson, preferiu drapear o vestido abaixo da cintura, o que, para mim, sempre lembra a concha do Nascimento de Vênus



Penélope Cruz, de grega rosada. Cada dia com um ar mais de Sophia Loren. Considerada uma das mais mal vestidas da noite. 


No mesmo rosadinho, Camila Alves com figurino de filme de George Lucas. Não causou o mesmo furor indignado que Penélope, mas quem tinha que brilhar na noite era o moço a seu lado. 


Bonito, politizado, roqueiro e com a californiana de baby liss mais desalinhado da noite, Jared Leto não faturou apenas um Oscar, mas também o troféu Ainda Mato Meu Cabeleireiro.



Categoria melhor peruca: Kevin Spacey em noite azul. 


Julia Roberts, de noiva caipira do Drácula, num modelo totalmente inspirado em Helena Boham-Carter. 



Ireland Baldwin, filha de Kim Basinger e Alec Baldwin, mostrando que beleza e charme nem sempre são genéticos, foi apontada, justamente, como uma das mais mal vestidas da noite. 


Momentos antes de posar toda circunspecta para esta foto, Jennifer Lawrence, a estrela sempre cadente, despencou ao saltar do carro. No ano passado, ela se embolou na hora de receber o Oscar. 



Para não correr riscos, foi à festa da Vanity Fair, mais tarde, com uma roupinha absolutamente inadequada para o uso sem seguranças responsáveis ao lado.


O único momento realmente original - e provavelmente muito bem ensaiado - da noite. Que tirou o Twitter do ar. 




18.10.12

Ismael, Ahab e a baleia

161 anos de lançamento de Moby Dick, aquele que já aproxima o leitor do narrador - e enlouquece os tradutores - na mais conhecida abertura da literatura: "Call me Ishmael".


(Tá bom, a mais conhecida abertura literária é "E no princípio era o Verbo", que enlouquece crentes, ateus, filósofos e leitores: e, tá bom, pra muitos chamar livro bíblico de literatura é depreciá-lo, mas, para mim, é elevá-lo a categorias mais que divinas).

22.9.12

Direto do canteiro - a reabertura!

Tô tão besta...
Não me canso de admirar a parede da varanda. Depois de um longuíssimo intervalo, recomecei a pintura em casa. Desta vez, uma equipe de amadores encarou rolos, pincéis e tintas para retomar a restauração da toca. Eu, Oto e Hugo demos a primeira demão na parede. Falta ainda muita coisa, mas vamos fazer aos poucos mesmo.
Engraçado que deu certo, embora eu achasse que não sairia direitinho, não.
Mas saiu. Cansa um pouquinho, a gente fica todo pintado, não houve qualquer laivo de brincadeirinha de filme americano com um jogando tinta no outro.
Me encheu de orgulho. E vou ficar com braços torneadíssimos.
Adoro a autonomia.

A equipe de pintura!!!!

13.9.12

Vida que segue

O intervalo da obra vai ser maior do que eu pensava.
A falta de recursos imediatos me obriga a planejar a recapitalização para retomar a pintura, provavelmente, depois da chegada da primavera.
O inferno astral começou dos bons, mas deu uma aquietada, felizmente. Dias de muito trabalho, de algum cansaço e muito movimento de gente moça festejando a vida em casa.  Eu era assim como meus filhos, festeira, sempre pronta a reunir os amigos.
Não dá pra reclamar, não.

28.8.12

Dois meses de caos

Meu bom humor em relação à reforma se esvaiu. Hoje, não aguentei o riso debochado do pintor e o dispensei. Eu havia pedido que ele pusesse corantes na tinta. Ele botou. Ficou amarelo marca-texto. Ele riu muito além do que a gentileza permite. Pintou duas paredes da varanda pequena. Perguntei se haveria salvação, se puséssemos outra tinta na mistura ou por cima. Ele ria e dizia que não.
Então, decidi, enfim, que a obra terminara. Ele ficou desconcertado. Perguntei quanto eu lhe devia pela varanda. Ele disse que eram 300 reais. No caminho até o quarto, eu me recordei que dera em adiantamento 1000 reais ao moço. Ele orçou a pintura de duas varandas, um quarto, duas salas e três tetos de banheiro em menos de 2 mil. E pintou dois tetos de banheiro, um corredor, duas portas e uma demão da varanda. Como é que tinha o desplante de me pedir mais dinheiro?
Fui lembrá-lo que já lhe havia dado mil reais e que estava muito bem pago. Afinal, ele trabalhou exatos seis dias. Fez um ar de desdém e disse; "Então, vamos deixar assim".
Hoje é o 60º dia da obra.
Este pintor, que é realmente um bom profissional, não tem a delicadeza de tratar bem quem o contrata. Odeio gente arrogante. Foi o único de todos os outros que por aqui passaram a exigir adiantamento e a não fazer o trabalho por cômodo. Gosta de bagunçar a casa inteira, mesmo que ela esteja habitada durante a obra.
Falida, espero o mês virar para continuar com esse inferno.

23.8.12

Inferno astral - 54º dia de purgatório

Racionalmente, não acredito em inferno astral. Mesmo assim, é bom culpar algo ou alguém pelos dissabores da vida. Meu inferno astral é de longa antecipação - e não tem nada a ver com a obra. Ele se impõe, mais de um mês antes de meu aniversário. Convenhamos que a contagem de tempo na época dos babilônios, de Zoroastro e de quem seja lá que começou com essa história de convencionar a trajetória de cada um pelos astros, proavelmente tinha apenas leves semelhanças com a que fazemos na atualidade. As pessoas viviam menos, dizem. Eram menores, também dizem (e é só subir uma escada construída há 200 anos para perceber que todo mundo tinha pés de gueixa. Eu, que calço 39, sofro numa casa colonial barroca brasileira). E o tempo custava a passar porque não existia TV, Internet, celular, carro, avião, cartão de ponto, eletricidade, música sertaneja, alta costura ou filtro solar. As pessoas trabalhavam para subsistir e manter o fausto de uma família parasitária que se alternava no poder com outros parasitas que tentavam tirá-los de lá à força.
Bem, meu inferno astral deu as caras semana passada, quando a porta de vidro do forno do fogão estilhaçou toda. Claro que pode trocar, claro que é difícil achar reposição.
Hoje, o inferno astral marca presença no momento em que fui vestir uma calça que mandei apertar na costureira. Era para apertar a cintura e os quadris. Mas a costureira gosta de calça skinny. E apertou as pernas. Tudo bem que é aquele tecido strech, que alarga mesmo. Mas não há a menor condição de eu andar por aí desfilando igual às moças do funk. Não tenho idade, corpo ou vontade pra isso.

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Rolou uma crise na pintura, que chega ao seu 54º dia. As interrupções de seu Flávio, que só trabalha três dias por semana estendem a obra até sabe-se Deus lá quando. Em festa de família, comentei que ele deixava a casa imunda. Meu primo foi tomar satisfações com ele, que se disse magoadíssimo. Tanta mágoa que mal dormiu à noite. Quando ele começou a recitar a triste ladainha de que só pegara o serviço porque minha tia insistira, que tinha muitas coisas a fazer, eu logo atalhei:   "Bom, vamos resolver essa situação, seu Flávio. Se o senhor está ofendido, pode fechar o dia de hoje. Eu lhe pago e tudo bem".Foi quando ele resolveu ficar, afirmando que não gosta de deixar serviço incompleto. Voltamos a ser cordiais e felizes.
Porque, na boa, mau humor em casa, basta o meu, né?

14.8.12

Ao pó retornarás

Obras, tradicionalmente, trazem dissabores e dispensas de contratados.
Há tempos de paralisações por falta de mão-de-obra, material ou dinheiro. Cheguei ao terceiro motivo.

O temor da absoluta ausência de recursos financeiro determinou a interrupção da obra por alguns dias - até a captação de mais verba que permita a pintura da sala, varandas e de meu quarto.
Provavelmente, um grupo de pintores amadores (Hugo e seus amigos) estará à frente de algumas demãos de tinta no corredor e em meu quarto.

Novas descobertas: o teto da sala corre o risco de despencar em dois pontos. Está completamente oco, depois de infiltrações do andar de cima, que foram sanadas, sem que houvesse reparos no meu teto.
Mais poeira me aguarda nas próximas etapas desse martírio interminável.

13.8.12

Do canteiro - Dia 42

Uma parede cor de telha com um borrão branco de massa pré-tinta não intimidou meus filhos a promoverem uma festa em casa no fim de semana. No dia seguinte, fizeram uma baita faxina e ficou tudo lindo.
O que me leva a repensar a reforma. O dinheiro se esvai e minha paciência idem.
O novo pintor me intimida. Amanhã, conversarei com ele, pedindo que encerre o que iniciou, não abra novas frentes em diferentes locais, deixando a casa completamente desarrumada. Restrinja-se à area já iniciada.
Acho que estou com muita vontade de mandá-lo embora mesmo. E chamar um dos anteriores. De início, a obra me entusiasmou. Agora, está me deprimindo. Só ouço histórias tristes, de pedreiros que derrubaram paredes abrindo apartamentos para áreas comuns do edifício. Medo, muito medo...

10.8.12

Do canteiro - Dia 39

Os lamentos que aqui murmuro em relação à reforma da casa - reforma é um termo meio forte; estou apenas pintando, trocando lustres, pequenos acertos e restaurações absolutamente necessárias, após dez anos sem retoques - são minha arma contra o desespero pela imundice branca que se aloja sobre meus poros, pouco a pouco invadindo todo o meu ser.
O pintor da vez é muito desorganizado. Ataca a casa inteira ao mesmo tempo. Eu quis, desde o início que as obras seguissem etapas. Primeiro, cozinha e dependências de serviço. Depois, quartos. Depois, banheiros. Por último, sala e varandas. Até agora, estava assim. Mas seu Flávio quis adiantar seu lado, lixando e emassando tudo quanto é canto.
Dá um certo desânimo, igual ao que me acometeu ontem, quando percebi que os entregadores das camas largaram o papelão que envolvia os móveis no corredor do prédio. Não custava, ao menos, avisarem. Acho que ficaram zangados porque eu não quis lhes dar uma cama velha, pagando, naturalmente, pelo desmonte do móvel - que eles iriam carregar. Fui gentil, agradeci, informando que já tinha alguém que viria pegar a cama.
Obras têm diversas fases. A atual é a do desalento.

9.8.12

Another one bites the dust..

Chegaram sofá e cadeiras reestofados, lindos. Beleza que conta com graciosas marcas de patinhas de gatos sobre o couro (falso, que sou ecológica e pobre) negro dos sofás. Meus livros, coitados, cobertos por imensos plásticos, não conseguiram se desvencilhar de uma grossa camada de poeira branca.
E hoje ainda chegam as novas camas dos meninos e uma escrivaninha nova para mim.
Pela primeira vez na vida, tenho a sensação real da utilização do 13º salário e do abono de férias. Foi tudo e mais um pouco na obra, que, se tudo der certo, deve acabar em vinte dias.
Resta saber se úteis ou corridos.

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Em busca de imagens para ilustrar a cobertura de poeira da casa, acabei chegando a descobertas arqueológicas de tumbas egípcias. Uma foto me chamou a atenção, pois parecia de Harrison Ford, num carrinho de mina, como no segundo filme das aventuras de Indiana Jones. Só que o ator estava mais para a idade atual do que a da época do filme. Abri a foto e descobri que era do arqueólogo Zahi Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, que incorporou a indumentária cinematográfica de Indy - ou ela já era usada pelos profissionais do gênero. 




Fui caçar informações sobre o chapéu, que eu conhecia como Fedora, mas que também é chamado de Borsalino, que me lembrou um filme com Alain Delon e Jean Paul Belmondo, de 1970. Nunca assisti a Borsalino, só me lembro que não obteve o sucesso esperado. A música era uma delícia, do Claude Bolling. 



Fuçando mais sobre Borsalinos e Fedoras, descubro que os chapéus de Indiana Jones são fornecidos por uma fábrica paulista. E mais não vejo, porque existe uma vida fora da Internet, para mim uma fonte de diversão pop e descompromissada como as antigas revistas Fatos e Fotos ou Manchete, que lia na sala de espera dos consultórios médicos em criança.









8.8.12

Do canteiro - Dia 37

Ontem, começou seu Flávio, que vai encarar a parte final da obra. Ou melhor, a maior parte da obra - sala, banheiros, varandas, corredor e meu quarto. Como todos os profissionais que por aqui passaram nesse último mês, tem lá suas idiossincrasias. Não trabalha sextas ou segundas-feiras. Isso porque também trabalha na praia, em uma barraca. Como já pintou os apartamentos de toda a família, e eu sei o quanto meus parentes são chatos, ele é detalhista e faz um trabalho excelente.
Hoje chegarão sofá, cadeiras e poltronas que mandei reestofar. Um meeedo do que vem por aí.
Acabo de iniciar a fase "Ih, o dinheiro não vai dar", que marca a etapa da obra que se estendeu por áreas onde audaciosamente ninguém deveria ousar atacar.
Comecei este diário para ver se mantinha o entusiasmo durante a obra. Será que daqui a dez anos terei forças para encarar outra? Esta, pelo menos, restabeleceu para mim o saudável hábito de me movimentar por todo o bairro, devido às idas quase diárias a diferentes estabelecimentos de material de construção, o que contribuiu para melhorar minha combalida forma.
Nada como uma restauração da alma, apesar do discreto aumento dos cabelos brancos. Tudo tem seu preço.


4.8.12

No woman, no cry

Esta reforma me traz um novo olhar sobre a espiritualidade. Hoje, tenho certeza de que há alguém lá em cima que gosta de mim. Sem brincadeira, fiquei agnosticamente balançada e, neurótica, que sou, imaginei a qual santo deveria agradecer a graça de estar saindo de casa e me deparar com um burro-sem-rabo com a tabuleta: "Pego entulho - Faço frete", em letras trêmulas e inseguras.
Eu ia ao supermercado e pretendia investigar junto aos homens que trazem as compras se algum retirria a tranqueira que os lambões (os serralheiros) deixaram aqui. Já contava com a ajuda mais que abençoada de Priscila, a faxineira da vez, um doce de menina que trabalha na casa de amigos queridos e faz biscate no fim de semana porque a vida não é fácil, não.
Sem acreditar em minha própria sorte, abordei seu Reginaldo que, imediatamente, tirou quatro sacos de entulho imensos, latas de tinta vazias e a maldita estrutura de ferro do finado basculante.
Tudo, tudo, tudo vai dar pé, já cantavam Gil e Bob Marley.
E vamos à faxina, que na terça-feira recomeça a folia.


3.8.12

A próxima etapa

O novo intervalo da obra é de três ou quatro dias, quando chegará seu Flávio, pintor da família. Nunca tive tantos pintores diferentes na mesma obra. Geralmente, eram apenas um ou dois. Obras sempre têm os homens que as iniciam, fazem besteira, abandonam o serviço, e os que vêm finalizar. Nesta, tive um pintor por canto. Um para a área de serviço, cozinha e dependências. Outro para o quarto de Júlia. Outro para o quarto de Hugo. Seu Flávio, espero, encerrará o resto da casa.
Não é apenas a diversidade de preços que determinou a substituição de equipes, mas o desinteresse deles mesmos em continuarem o serviço.
No meio, o inesperado: Jac me atacou, decici trocar estofados, comprar móveis e substituir a janela. Tudo estava em petição de miséria, mas ainda ficarão mais estofados a serem reformados, além de um banheiro pedindo restauração. E tem as maçanetas. Algum dos incontáveis mistérios desta casa é o perpétuo sumiço de maçanetas. Por que isso ocorre, não sei. Mas há algumas portas que precisam de novas maçanetas.
Duro é pensar que estamos ainda a meio da epopeia.
Meu Santo Stanislau... Eslovenos cantam "Ai, se eu te pego" no Globo Repórter.
Haja poeira...

Direto do canteiro - Dia 32

O serralheiro/vidraceiro e seu ajudante estão aqui. O síndico já se manifestou, reclamando que eles fazem a retirada da janela sem proteção - o que é proibido por norma municipal. Eu desconhecia a norma, não posso discutir isso com o síndico. A proteção que obtivemos foi estender um plástico grosso sob a possível área afetada, um telhado aparentemente bastante sólido, com aquelas telhas que um dia foram de amianto.
Os homens cortam um dobrado para retirar a estrutura de ferro de um basculante que encontramos aqui quando compramos o apartamento, 20 anos atrás. Era a ventilação de um banheiro que ocupava a varanda original. Recuperamos a varanda, iluminando e refrescando a sala, mas mantivemos o basculante horroroso. A ferrugem não o derrotou. O ajudante do serralheiro cortou-se e eu fiz um imenso curativo em sua mão.
Depois de duas horas e meia de peleja, eles conseguem deslocar as ferragens. Daqui a pouco chega a janela nova, simples, que, se eu pudesse, seria em madeira, mas, por praticidade e preço, vem em alumínio mesmo. 
Seu Jorge dá os últimos retoques no quarto de Hugo e vai pintar uma parede no de Júlia.
É o último dia útil de minhas férias.
No meio da tarde, o serralheiro esbraveja. Seu Jorge, o pintor, já acabou seu serviço. Adoramos seu Jorge, boa gente, tranquilo, gentil. Seu Marcos, o serralheiro, não imaginou que o basculante estivesse fora de prumo. Ou melhor, que a parede estivesse fora de prumo. Engraçado que ele fala como se nós, que contratamos o serviço, que não temos ideia de como se constroi qualquer coisa além de castelos de areia na praia, tivéssemos obrigação de prever os erros de construção.

E haja poeira...

2.8.12

Direto do canteiro - Dia 31

O dia promete.
Quase 10 da manhã, telefono para a serralheria para saber a que horas virão instalar minha janela - que deveria ter sido entregue há uma semana, com adiamento para terça-feira e, depois, para hoje. "Ah, ia mesmo, mas o rapaz que instala não veio". Indago, então, quando será feita a instalação. Isso gera uma resposta indignada da atendente, pois não pode me informar nada, já que o "rapaz" não virá. Por que não me avisou sobre a ausência do rapaz? "Ué, estava esperando que ele aparecesse. Ele acabou de ligar pra dizer que não pde vir, não". E quando será o raio da instalação? "Lá pelas 17h, eu aviso". 

Sim, eu sei, existe reencarnação. E todos os que resolvem fazer obras em casa, comprar eletrodomésticos, móveis ou usar os serviços do governo para tirar documentos obrigatórios pagam o carma por vidas passadas. Só pode ser isso.
 
 

31.7.12

Clarividência


Seu Jorge, o pintor que me deixará ao fim desta semana, e seu Reinaldo, o instalador de ventiladores de teto, têm catarata.Semana passada, descobri que eu também tenho - ainda quase desprezível, a ser mantida em crescimento até a inevitável cirurgia, daqui a décadas.
Tirésias, na mitologia grega, era cego e profeta. Homero, o poeta, também não enxergava, assim como Borges, o escritor.
Ultimamente, vi muito Globo de Ouro que tinha Kátia, a cantora cega, como destaque.

Acendo uma vela para Santa Luzia e estamos conversados.


30.7.12

Digressões, diretamente do canteirão

Gosto de decoração. Um gosto que só surgiu depois que tive minha própria casa, já que meu quarto sempre foi co-propriedade de minha mãe, que chegou ao cúmulo de colar um poster do Chico Buarque no meu armário. Daí, talvez, venha minha percepção de Chico como um senhor que desperta fantasias eróticas em senhoras. Por mais que hoje eu seja uma senhora, para mim, Chico regula com o Niemeyer. Houve um tempo em que me apropriei de meu quarto, colando posters de artistas de cinema e astros do rock em todas as paredes possíveis. Depois, fiquei sóbria e limitei os recortes a um quadro de cortiça, elemento indispensável aos cafofos adolescentes de então.
Dos sites e blogs sobre decoração adoro os que mostram a casa das pessoas comuns, sem grandes artifícios ou projetos com assinatura de Phillip Starck. Meu amigo Ronny, arquiteto que atua no setor de interiores e faz projetos pra gente acima do meu parco cacife, me contou que está reformando um quarto ao módico preço de 300 mil reais. Caindo na real, gosto de blogs como o Dcoração, que mostra essas casas de quem vive contando os caraminguás. É tão legal que a autora hoje tem coluna em jornal popular.
No fim de semana, fui atrás de camas para meus pimpolhos, já que as deles se acabaram. E aí, encontrei caixotes "paletes", aqueles caixotes de transporte de frutas pra feira, que agora entraram na moda e custam... em torno de 400 reais!!!
Enquanto o Rio vive a fase de hipervalorização imobiliária, descobri um blog sobre apartamentos na Argentina. Não, não pretendo me mudar para Buenos Aires. O que me estarreceu foi perceber o empobrecimento demonstrado na decoração de cada casinha, sempre com móveis velhíssimos, adaptados ao momento. O blog é um encanto, as casas também. A ambientação tem muitos enfeites infantis, típicos da geração que hoje está com uns 35 anos, que "ousa" na imaturidade. Vintage é a palavra de ordem, marcando o constraste da sobriedade de móveis herdados da família com peças de origami. E há deliciosos jardins de inverno, cheios de plantas...
Claro que a gente sempre gosta de conhecer maisonettes de Paris, lounges de Nova York e casas apertadinhas em Londres, mostradas no maravilhoso The Selby, que vive no Brooklyn e percorre o mundo fotografando a casa de pessoas muitos interessantes. O desconjuntado que surge na Casa Chaucha também me fascina. Porque a casa da gente precisa de combinações nem sempre deliciosas. Precisa ser meio embolada, antiquada, contemporânea. Tudo junto e misturado.
E começa a quarta semana de trabalhos.
Na próxima, deve vir mais outro pintor. O seu Célio, o primeiro, que desapareceu, ligou no fim de semana pra dizer que a avó morreu, razão de seu sumiço. O atual, seu Jorge, é um doce, mas muito lento. Seu Flávio chega na próxima pra pegar a sala. E meu quarto deve iniciar a reconfiguração esta semana também. Ai, ai... tô mais desconjuntada que milongueiro porteño.

A casa ainda está mais ou menos assim. O amarelo das paredes deve ser substituído por um tom mais suave ao fim dos trabalhos. E Gal poderá passear tranquilamente entre as plantas, como gosta.

26.7.12

O desvario começou

Vou pintar a sala.
O problema não é o custo. O problema é transportar quase três mil livrinhos bem acondicionados em muitas estantes para outros cantos da casa. Porque livro tem esponjas dentro. Eles absorvem poeiras, traças, ácaros.
Uma veneziana clama por substituição. Está presa por pensamento positivo.
Começo a temer a falência pós-reforma.
Maldito Jac.


25.7.12

Canteiro de obras reaberto - Dia 24

É, deveria ser o 24º dia. Mas houve um longuíssimo intervalo de mais de uma semana. Perdi as contas, mas já vai pra um mês que a balbúrdia reina em meu desalinhado lar. Seu Jorge, o pintor, apareceu e começou a mexer no quarto dos meninos. Vai levar uns quatro dias, já avisou. Depois será a vez do meu quarto, o coração da casa. E, inoculada por Jaques/Jack, doravante aqui denominado por Jaque, é bem provável que eu mande pintar a sala também.
Ontem, fiz muitas contas. O custo é alto, mas ainda pagável, graças à devolução do Leão e à antecipação do 13º. Depois, a penúria me espera, mas de casa renovada.
Claro que também ressurgiu o Tiago, o eletricista. E vamos ter que dar uma remexida nos fios. Tem uma verdadeira teia de fios retorcidos, ressecados, parecendo arvoredo de caatinga, sob tetos e paredes. Jaque determinou uma revisada nisso.
Os olhos já estão doloridos, lacrimejantes e secos, por mais paradoxal que isso pareça. Nariz entupido e cabeça doendo. A poeira já impera, mas os ácaros de livros remexidos também se faz presente.
Ah, claro. A máquina de lavar quebrou.

23.7.12

Ainda no intervalo, com Jack ou Jacques

Talvez na quarta seu Jorge venha pintar algum cômodo desta residência. Enquanto isso, inquieta, peguei eu rolinhos e tinta e decidi pintar de branco uma estante que já passou por alguns proprietários. Chegou aqui verdinha, aposentada após anos carregando livros e brinquedos do filho de meus compadres. Antes, pertencia a um tio de meu amigo. Esse tio (que não sei se ainda é vivo) é daquelas pessoas referência na família dele. Na minha havia as "Mimitas". As Mimitas eram as filhas de Dona Mimita, amiga de minha avó. Não existia uma só conversa na família em que as Mimitas não fossem mencionadas. Porque todo mundo era conhecido, amigo, parente ou havia cruzado com as Mimitas uma vez na vida. Um dia, fui falar com um advogado indicado por uma tia. E não é que o cara era neto de Dona Mimita, um legítimo Mimito.
Enfim, a estante do Tio Mimito (não me lembro do nome dele, mas ele deve ter conhecido, namorado ou convivido com as Mimitas algum dia, porque isso acontece com toda a humanidade) acabou no quarto de Júlia. De verdinha, virou laranja, há cerca de dez anos, quando pintei uma parede da sala de telha. Agora,  transferida para a sala,  precisa de outra cor, mais adequada ao cenário. Me empolguei e comecei a pintar. Muito mal mesmo. Passa por pátina mal feita.
E enquanto a pintura não recomeça, eu contraí o Jacques, um estranho vírus que ronda quem faz reforma em casa, conforme minha amiga Rosana Lourenço havia me advertido. Os sintomas se manifestam quando o reformador olha algo que nada tinha a ver com o plano inicial e pensa"já que estou pintando tudo, que tal trocar o estofado do sofá?". Foi o que me aconteceu. Primeiro, decidi trocar uma janela - que há 20 anos merecia descansar no lixo, coitada. Agora, em vez de comprar outro sofá, resolvi reformar a cacarecada aos poucos - duas cadeiras de balanço que eram de minha mãe, umas cadeirinhas austríacas, outro sofá.
Mas Jacques/Jack não me containará mais. Senão, acaba virando o Estripador de minhas parcas reservas financeiras...