29.12.08

Freud nunca me explica

Tive uma ex-terapeuta linda e metida a íntima demais. Queria que eu trocasse uma blusa que eu vestira pelo avesso na frente dela. Atendia em casa. E era síndica do próprio prédio, onde morava uma de minhas grandes amigas. Não combina com terapeuta ser síndica do prédio. Nem morar no prédio de nossos amigos.
Minha outra ex-terapeuta era uma figura maternal. Muito boa, muito legal. Morria de medo dela, daqueles olhinhos azuis brabos. Só uma vez tive coragem de usar o banheiro do consultório.
Pra nenhuma das duas eu contava mais que pequenos fragmentos de minha vida.
Desisti de ser cabeça, faltava a tantas sessões.
Depois pagava, claro.
Definitivamente, não confio nem em psicanálise.

25.12.08

Um presente de Natal


Apesar da lufa-lufa da véspera de Natal (supermercado-manicure-compras de última hora- almoço na Titia-telefonemas de votos festivos-ceia nos compadres), a tranqüilidade da festa máxima do comércio encontra minha casa em ampla, total e irrestrita desorganização, com papéis e fitas espalhados por todos os cômodos.
Antes que se inicie a correria de hoje (interurbanos aos amados distantes-almoço na casa de amigos-lanche na casa de outros) e a depressão pós rabanadas, na subida sobre a balança, me entrego à degustação de uma deliciosa novela de Alan Bennett - Uma Real Leitora (An Uncommon Reader), publicada aqui pela Record.
É o mais recente trabalho deste dramaturgo inglês, conhecido no Brasil pelos roteiros dos filmes As Loucuras do Rei George, The History Boys (que passa sempre em TV a cabo) e Prick Up you Ears, um filme sobre o Joe Orton, com Gary Senise e Alfred Molina bem jovens (acho que só vi em vídeo, priscas eras atrás).
A leitora incomum é Elizabeth II, a rainha inglesa, que descobre a paixão pela leitura às vésperas de seus 80 anos. Só que a novidade afeta tudo o que a cerca, já que ela se acostuma a viver acompanhada por livros.
Qualquer viciado em leitura se vê na personagem. E, por ter acabado de experimentar uma situação muito particular, compreendi o quanto ser leitor incomoda a quem não desfruta da mesma graça. Mais interessante: nos faz refletir o quanto a leitura pode ser subversiva. Esta leitura foi o meu presente de Natal, numa manhã quente de um verão que tenta se mostrar.
(A rainha da Inglaterra, agora velhinha, está virando figurinha fácil no imaginário dos artistas ingleses. Começou com A Rainha, de Stephen Frears. A leitora apaixonada, pra mim, não tem a cara de Elizabeth, mas da Helen Mirren, que vai custar a recuperar suas próprias feições, creio. )