7.1.07

E o marido?


Dia de Reis, tarde abafada do estranho verão carioca. Um PM pede carteira e documentos do carro.

- De quem é este carro?

- De minha mãe - responde a motorista.

- Tem documento mais recente, que não seja o de 2002?

- Aqui? Não. (certamente existe um documento recente no Detran e não foi retirado por falta de pagamento do IPVA, mas o guarda não perguntou isso...)

- O que faz o seu marido?

- ????

- Seu marido, ele trabalha em quê?

- Ih, moço, não tenho marido, não...

O policial busca ajuda de seu companheiro de ronda, que porta uma reluzente metralhadora. O segundo guarda dispensa a motorista, recomendando que ela regularize a situação do veículo, explicando que só pediu que parasse por vê-la com dois "garotões".

- São meus filhos.

- Pois é, madame, mas de longe, a senhora sabe, né? A gente tem que conferir de pertinho.

Conferir se a madame tinha marido, garotões ou o quê?

1.1.07


Meia idade parece com adolescência. A gente vai desbravando um novo tempo e sentindo melancolia pelo fim de outro. Inveja quem ainda não chegou a este patamar - pelo viço, pelas novas experiências e descobertas que fará - enquanto teme alcançar a era em que as novidades já não importam tanto assim.
Talvez a vida inteira seja composta dessas experimentações, da sensação de inadequação porque o momento certo ainda não começou. O acontecido passou velozmente e o futuro está batendo em cada porta, doido para nos assombrar com a falta de expectativas.
Escapar dessas reflexões todas exige uma boa turma, que fortalece a vivência.
Igualzinho como fazem os adolescentes...

Balançando


Andar de balanço foi minha diversão favorita durante todos os recreios de minha infância. Nunca fui retraída, daquelas meninas que se escondiam do mundo, mas brincadeiras de correria não me atraíam. Muito melhor era exercitar pernas e mente, viajando por quinze ou vinte minutos no intervalo entre as tediosas tardes que transcorriam lentamente e que não recordo como os anos felizes da meninice. Tinha um bom círculo de amizades, mas não freqüentávamos as casas umas das outras. A badalação social só viria na adolescência.

Até hoje quando penso em balanço me vem à cabeça tardes nubladas, céus brancos e as meias três quartos escorregando pela canela, enquanto não ligava se a saia pregueada do uniforme se inflasse como um balão. O colégio não era misto ainda.

Balanço mudou de significado com meu amadurecimento. Transformou-se em um conceito pesado, uma relação de realizações e frustrações contabilizadas durante um período. Também virou a tradução de um gênero musical, algo metido a sofisticado, aquele requebrado meio bossa nova, meio Banda Veneno.

E no início de um novo momento para abrir uma lista nova, prefiro o balanço que me fazia alçar aos ares, daydreaming por curtos momentos, vivendo intensamente além das fronteiras físicas e da realidade.