Aconteceu e registrei há um ano, no Facebook.
Grey power em alta na província de Botafogo. No campo de batalha que é o Mundial, hoje absolutamente entupido de gente se esgueirando pelos corredores ocupados pelos repositores de mercadorias (só pode ser marketing, poxa. Eles não param de fazer isso - ou então ficam arrumando os produtos nas gôndolas), uma senhora entre 78 e 84 anos implica com uma mulher jovem de carrinho cheio na fila dos idosos. A moça aguardava a patroa, uma senhora entre 78 e 84 anos. A que chegou depois começa a gritar pelo gerente e se enfia na frente da empregada. Chega a patroa, as duas batem boca. A acusadora dá um empurrão na outra. Salomonicamente, o gerente fecha o caixa e ambas se transferem para outras filas, onde, gentilmente, outros consumidores lhes cedem a vez.
Pego um táxi. O taxista, língua coçando no palato, me conta, sem que eu peça, que
1) a passageira que descia e que me abria a porta, faixa etária entre 78 e 87 anos, cabelos negros até a altura do peito, está fazendo comprinhas para ir a Paquetá, passar uns dias com o namorado. Digo "que bom pra ela!". E ele completa: "É um romance secreto, ela não quer que os filhos saibam". Eu continuo no "que engraçado". E ele: "Ela falou que o marido é muito bom, mas muito chatinho, por isso arranjou o namorado".
2) abre um preâmbulo que não é vaidoso, longe disso. Mas que ontem, dois rapazes, no carro parado ao lado dele, perguntaram se sua barba era natural e elogiaram o rosto hisurto. (eu só via a cabeça, fios brancos esparsos, fininhos...) E que uma mulher o interpelou no Posto 6, onde ele mora, para dizer que sua barba era linda. "Mas eu não gosto, sabe? Envelhece". E eu: "Então, tira". E ele: "Só depois do Natal".
Felizmente, cheguei a meu destino, antes que ele viesse com um papo qualquer sobre fantasias amorosas de um Papai Noel.
3.9.16
29.8.16
MTV Video Awards 2016
Num dia pavoroso, a gente precisa ver VIPs de roupa esquisita. Para isso, existem os tapetes vermelhos como o do MTV Video Music Award. O tema da noite, aparentemente, era a Guerra dos Farrapos. Todo mundo parecendo que saiu de festa junina de colégio. Começando pela filhinha linda da Beyoncé, cujo traje - eu li, eu pesquisei - custou algo em torno de R$ 36 mil. Na boa, era só dar um pulinho na Petit Ballet ou na Casa Turuna mesmo. Saía bem mais em conta e o efeito "Fadinha da apresentação de fim de ano do Jardim Garotinhas Riquinhas" seria até melhor.
Queen B mais uma vez esqueceu-se do forro do vestido em casa. A fantasia de Rainha das Avestruzes no Lago Azul pode ser totalmente desfeita e reaproveitada para desfiles carnavalescos ou como cortina de teatro em shows da diva.
O filho do Will Smith continua lutando para ser finalista do troféu Helena Bonham-Carter, porém ainda não compreendeu que precisa de mais autenticidade na composição de adereços. No máximo conseguiu o troféu Chico César pelo arranjo capilar.
Transparência já é feio normalmente. De calçola, então...
Nicki Minaj, sempre buscando o troféu Adele Fátima.
E Britney, cada vez mais Deborah Secco.
O modelito de Rita Ora tem plumas, tem transparência, tem cor, tem contraste, tem pelúcias. Mais um pouco, virava poltrona dos irmãos Campana.4.7.16
Abra as suas asas
Um dia saí de casa, e, ao voltar para visitar meus pais,
descobri que meu quarto fora transformado em escritório. Minha caminha de
solteira havia sido dada para o porteiro, os quadros de cortiça aguardavam num
canto que eu decidisse seus destinos. Meu armário já guardava incontáveis
paninhos, roupas de cama, objetos que até então estavam espalhados por outros
cômodos. Minha presença tinha sido exorcizada dali: o que um dia eu usara
ganhava outras utilidades, entre elas a de depósito do que preferimos esquecer
que faziam parte da vida.
O recado era claro: quis sair, não volte. Mas eu voltei,
quase dez anos depois, acompanhada por quatro crianças pequenas. Minha mãe
engoliu o ressentimento pela "fuga" da filha única, nos acolhendo generosamente,
embora, naquele momento, ficasse claro que éramos hóspedes temporários, que atrapalhávamos
sua tranquila e dolorosa solidão.
As aves expulsam do ninho os filhotes para que eles aprendam
a voar e tomem seu rumo. Ninho vazio só existe pros humanos. Retardamos a saída
dos filhos desde que derrubamos o manto hipócrita da sexualidade camuflada
desses filhotes, permitindo que tragam namorados para dormir nos seus virginais
quartos. Nós os queremos embaixo de nossas asas, mesmo que sejamos tolhidos por
visitantes que passam as noites sob nossos tetos. Precisamos vê-los diariamente,
dar palpite em suas decisões, ouvir suas vozes, festejarmos a existência no
encontro frequente. Desejamos que eles voem, mas que estejam bem próximos, ao alcance de nosso olhar.
O esvaziamento do ninho vai além da saudade dessa
convivência interrompida. É mais uma comprovação de que nosso tempo está se
esvaindo, de que a decadência física ficou mais próxima do que imaginávamos. Que a maior realização de nossas vidas não é a fortuna adquirida, a carreira sólida. A vida continua interessante, porém, nosso maior prazer está ligado a quem trouxemos ao mundo. E a alegria pelo surgimento de novas gerações jamais sublimará a noção da perda
do poder. Passar o bastão, recolher-se para o mundo, é impensável. Que o diga a
Rainha Elizabeth.
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