8.1.18

Globo de ouro 2018 - a festa é as mulheres

É possível errar até numa noite de pretinhos básicos? Claro que sim! Claro que a uniformização pela cor já reduziu as falhas de sempre, porque estilista respeita o preto e busca dar um jeitinho mais solene às vestes. Mas sempre existirão Cher e Helena Boham-Carter para inspirar o bizarro, o estranho, o inimaginável. E este ano, houve muito concorrente ao prêmio bizarrice da noite.

Pesadelo sobre Tafetá - Um tributo à Helena Boham-Carter foi a fantasia de Sarah Jessica Parker . Provavelmente o mais feio figurino da noite, com inspiração clara em roupa de bruxa de filme americano, trazendo um indesculpável cinto em prateado e sapatos de matar barata no canto com fivelão prata.

Saiorse Ronan concorreu com Bowie's alive, eabiscoitou um bom premiozinho, mas em outra categoria, a de atuação.


O título de Noiva Cadáver foi arrebatado por Alicia Vickander.


Michelle Pfeiffer também caprichou no tema Viúva digna do Faroeste.

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Eva Langorria, grávida, conseguiu entrar no vestido, mas precisou abrir no busto e nas pernas. É a única justificativa para um modelo tão pavoroso, vencedor da categoria Faltou Pano.

Kelly Clarkson sempre sonhou em ser cantora de ópera. Começou, então, a caprichar na silhueta. E resolveu fazer a releitura de alguma super-heroína, encarnando a Mulher do Braço Biônico, uma prova de que a misoginia do estilista pode surgir até num longo preto pra lá de clássico.


A categoria Lingerie/Negligée teve duas concorrentes de peso - e que, geralmente, usam modelos de extrema elegância. Não foi o caso da noite de Catherina Zeta-Jones e Halley Berry. 



As viagens pelo tempo de Catrhiona Balfe são a única explicação plausível para o pavor que ela vestiu, misto de roupa de Moulin Rouge com velório no interior. Deu um certo ar de "dama de lupanar" ao traje.


Por fim, a categoria "mocinha de colégio interno" foi vencida por Elizabeth Moss. A golinha em prata, os sapatinhos... tudo detalhado até demais, com um efeito nada glamouroso.


7.12.17

A economia doméstica

Anos 70: milagre econômico, todo mundo investia em ações, incluindo meus cautelosos pais, que sempre reservaram um dinheirinho pra poupança. Na metade da década, meu pai quarentão perde o emprego e não consegue se recolocar em publicidade, virando redator de jornal - que ele gostou muito mais do que ser publicitário, embora o salário fosse um terço do que percebia antes. Sensação de descrença no país do futuro.
Anos 80: Sucessivos planos econômicos, filas de desempregados virando esquina em busca de vagas nas mais diferentes colocações. O desemprego volta a meu lar na figura do então marido. Eu trabalho em jornal. Sensação de descrença no país do presente.
Anos 90: Plano Collor estropia as reservas da família. Perco o emprego depois de dez anos no Globo. Entro no projeto Odara: quiosque na Praia de Rio das Ostras. Fim do casamento, volto para jornal, acabo fazendo assessoria de imprensa. Sensação de piloto automático ligado para pagar as contas e tocar a vida.
Anos 2000: Anúncios de contratação surgem nas vitrines das casas comerciais. Viro pessoa jurídica, trabalho como frila. Sensação inacreditável de júbilo com o crescimento da economia e saída do país do mapa da fome.
Anos 2010: Aos 51 anos, sou contratada para um trabalho com carteira assinada! Aos 55, retomo a vida de frila quando perco o emprego. Somem os cartazes de contratação nas vitrines das lojas. Empregos temporários são oferecidos para os jovens da família. Sensação de descrença na vida.

30.11.17

Sobre fome e tristeza

Como boa parte dos habitantes do planeta, vivo para pagar dívidas e serviços. Sei que conseguirei saldar tudo em algum momento, nem que para isso me desfaça do patrimônio conseguido com sacrifícios e trabalho. Começar de novo é difícil, porém não impossível para mim. Meus problemas são equilibrar contas, e, vez por outra, passar pelo constrangimento de ter luz ou gás cortados por falta de pagamento.
E as pessoas que não têm como se constranger? Pessoas que só tiveram o azar de não serem frutos do mesmo acaso biológico que eu. Pessoas que tentam buscar algum oxigênio na miséria e que perdem um direito social cortado porque precisamos, sim, arcar com salários e benefícios altíssimos para apenas uma parcela ínfima da população. Pessoas que vivem à míngua, completamente ignoradas pelo Estado.
Foi para isso que depuseram Dilma Roussef.
Não pela corrupção, que, esta sim, sobreviverá e alimentará os poucos de sempre.
Enquanto se isentam de impostos os bancos, lutam para encerrar programas "populistas", retirar direitos trabalhistas e reformar a Previdência.




Mas isso não interessa a Simone e a seu filho. E ninguém se interessa por Simone e por seu filho. Ela, uma folgada, que viveu às custas da gente de bem, terá que se virar para alimentar o garoto. Ou morrer, né? De fome e de tristeza mesmo.