4.7.16

Abra as suas asas

Um dia saí de casa, e, ao voltar para visitar meus pais, descobri que meu quarto fora transformado em escritório. Minha caminha de solteira havia sido dada para o porteiro, os quadros de cortiça aguardavam num canto que eu decidisse seus destinos. Meu armário já guardava incontáveis paninhos, roupas de cama, objetos que até então estavam espalhados por outros cômodos. Minha presença tinha sido exorcizada dali: o que um dia eu usara ganhava outras utilidades, entre elas a de depósito do que preferimos esquecer que faziam parte da vida.
O recado era claro: quis sair, não volte. Mas eu voltei, quase dez anos depois, acompanhada por quatro crianças pequenas. Minha mãe engoliu o ressentimento pela "fuga" da filha única, nos acolhendo generosamente, embora, naquele momento, ficasse claro que éramos hóspedes temporários, que atrapalhávamos sua tranquila e dolorosa solidão.
As aves expulsam do ninho os filhotes para que eles aprendam a voar e tomem seu rumo. Ninho vazio só existe pros humanos. Retardamos a saída dos filhos desde que derrubamos o manto hipócrita da sexualidade camuflada desses filhotes, permitindo que tragam namorados para dormir nos seus virginais quartos. Nós os queremos embaixo de nossas asas, mesmo que sejamos tolhidos por visitantes que passam as noites sob nossos tetos. Precisamos vê-los diariamente, dar palpite em suas decisões, ouvir suas vozes, festejarmos a existência no encontro frequente. Desejamos que eles voem, mas que estejam bem próximos, ao alcance de nosso olhar.

O esvaziamento do ninho vai além da saudade dessa convivência interrompida. É mais uma comprovação de que nosso tempo está se esvaindo, de que a decadência física ficou mais próxima do que imaginávamos. Que a maior realização de nossas vidas não é a fortuna adquirida, a carreira sólida. A vida continua interessante, porém, nosso maior prazer está ligado a quem trouxemos ao mundo. E  a alegria pelo surgimento de novas gerações jamais sublimará a noção da perda do poder. Passar o bastão, recolher-se para o mundo, é impensável. Que o diga a Rainha Elizabeth. 


17.6.16

Egotrip

Rendi-me à egotrip e listo 10 coisas sobre mim que muita gente sabe.
1) Minha bebida favorita é mate.
2) Faço diário - atualmente tá mais pra semanário, quinzenário ou mensário - desde os 11 anos de idade.
3) Cresci um centímetro depois dos 40 anos: sempre tive 1m61 e meio. Agora. ostento 1m62 e 1/2; daqui a mais quarenta anos, espero crescer, no mínimo, uns dois centímetros...
4) Meus polegares não têm curvatura, o que me impede de fazer tricô e de pegar corretamente no lápis. 
5) Fui macrô por quase três meses de vida. 
6) Faço palavras cruzadas (da Recreativa) desde criança, sou viciada em Ma-jong e Tranca no computador, adoro jogar buraco (saudades, Edu GraçaEveli Ficher - a melhor das parceiras -, Eliany FicherSolange Noronha e uma dupla que prefere manter o anonimato na jogatina). 
7) Já fiz ghost writing de livro espírita. Duas vezes. E revisei um livro psicografado de autoria de São Marcos, o Evangelista (que, em 2 mil anos, perdeu o estilo, tadinho). Nunca tive coragem de incluir esse feito em meu currículo. 
8) Gosto de escrever em papéis sem pauta.
9) Tenho paixão por loja de ferragens. Adoro comprar pregos, broca de furadeira, mãos francesas. Antes da tendinite me impossibilitar totalmente de muitas traquinagens, eu vivia furando paredes para pendurar quadros ou pregar estantes. 
10) Não sossego enquanto não descubro o título do livro que alguém carrega ou está lendo. Conhecidos ou desconhecidos. Sou daquelas que disfarça e olha por cima do ombro a página que o outro lê.


11.6.16

Alma

Nunca gostei de tatuagens, da permanência que elas imprimem na pele. Queria tatuagens removíveis, variáveis, que durassem apenas uma mudança de lua. E aí eu reconheço uma delas, um detalhe num canto de foto que mostra um pouco de quem me dá alento pra viver. 
Uma pena eu ser alérgica a pigmentos. Queria fazer uma marca igualzinha, definitiva, mas só posso carregar desenhos na alma.