29.7.05

Da calçada





Sair de casa, olhar para o lado e me deparar com o morro do Corcovado, mesmo encoberto por nuvens num dia de sol é o melhor de viver em Botafogo!
De toda a obra do Paul Auster, o que mais me encanta são dois filmes que foram roteirizadospor ele, que deu uma força na direção de Wayne Wang - "Cortina de Fumaça" e "Sem Fôlego". Ambos têm narrativa naturalista e agradável sobre as figuras que habitam o Brooklyn. O protagonista, Auggie, vivido pelo Harvey Keitel, gerencia uma tabacaria e diariamente vai à calçada em frente, sempre no mesmo horário, para fotografar a loja, rua, carros e passantes. Chovendo, nevando ou fazendo sol, ele se posta no mesmo ponto e fotografa a rua, arquivando tudo num álbum. Aparentemente, as fotos são iguais, mas é numa delas que o personagem de William Hurt, um escritor viúvo, percebe sua mulher.
Nesses tempos de registros instantâneos, em que a memória visual parece mais importante do que vivenciar um instante, eu gosto de, todos os dias, ao sair de casa, fotografar mentalmente o Corcovado, aquele morro coberto de vegetação que a gente consegue divisar entre prédios feios.
O morro permanece igual, mas a cada dia traz sensações diferentes e sua beleza injeta o ânimo necessário ao meu dia. Se estivessem fixados em fotos, as impressões poderiam me mostrar aspectos invisíveis à velocidade do tempo. O perigo estaria em deixar de viver para observar a vida da calçada.

27.7.05

Depoente

E se meu nome fosse Marizilda Stephanie e eu fosse parar na CPI?
Vestiria meu surradíssimo blazer de crepe preto,
camiseta preta, calça preta, scarpin pretos.
E assim, fantasiada de urubu, com poucas bijouterias, porque sou classe média mesmo e as jóias já foram torradas, pregadas ou roubadas,
estaria lá sentada, sem advogado, imaginando como pagaria a segunda parcela da passagem aérea comprada no cartão de crédito - ou a CPI providencia a passagem pros depoentes?
Falaria de minha vida pregressa e do meu pequeno progresso profissional e patrimonial.
Falaria que tenho quatro filhos, mas só vivo com dois.
Os maiores, ingratos, quiseram ter aquela "presença masculina" tão necessária para a formação do caráter do menino.
Os menores podem querer à vontade, que daqui do meu lado não saem não!
Pensaria que aproveitaria a estada em Brasília para ver meus filhotes, tão lindos, tão saudosos, tão grandes, tão amorosos com a mãe com quem falam quase diariamente, mas que encontram apenas a cada três meses.
E viria a carga:
"A senhora conseguiu seu emprego por indicação política ou profissional? Ou foi uma indicação pessoal? Foi seu ex-marido? Foi seu ex-namorado? Qual é seu relacionamento com seu ex-marido? E com a mulher de seu ex-marido? Em que posição a senhora se coloca nos relacionamentos afetivos? Como a senhora adqüiriu seu carro? Quantos automóveis a senhora teve? Por que a senhora não optou pelo ofício de dona-de-casa? Por que a senhora vive na Zona Sul do Rio? A senhora tem empregada doméstica? Quer dizer que a senhora emprega uma mulher para cuidar de sua casa, de seus filhos, enquanto a senhora vai trabalhar? A senhora tem um tio que morou em Brasília em 1960? A senhora tem família em Brasília? Sua mãe trabalhava na Caixa Econômica Federal? Seu pai era jornalista? Sua tia é aposentada do Ministério da Fazenda? Seu avô era pedreiro? Ele foi fundador do PT? Havendo morrido antes da fundação do PT, seu avô não instruiu sua avó, em Santa Catarina, para participar da fundação do PT? Seus avós sabiam do esquema do mensalão?"
E aí eu veria que minha história, como a história de toda a humanidade, está entrelaçada a ponto de qualquer pergunta feita pelo novo tribunal do Santo Ofício parecer incriminatória.
Mas juro que não ia chorar.
Minhas lágrimas eu quero guardar para emoções mais sinceras.

Hai-ai-ai-kai na rede

De que vive
quem vive
o dia inteiro na Web?