14.3.05

Minha família e outros animais


Este título não é meu. É do Gerald Durrel, magnífico naturalista, irmão caçula do eterno candidato ao Nobel de Literatura Lawrence, mas, não tão bem sucedido quanto o mais velho, diz o V.S. Naipaul, segundo conta Rosa Montero, na "Louca da Casa". Discordo ardentemente, até porque fui só ler Lawrence, por duas razões: haver assistido ao filme "Justine" e lido Gerald. Lawrence, para mim, era Larry, o mais velho dos filhos da viúva Durrell, que não ligava para as esquisitices de cada um de seus pimpolhos, com quem foi viver na ilha grega de Corfu, antes da Segunda Guerra Mundial. Enquanto Larry vivia escrevendo, a irmã, Margareth, só queria saber de se apaixonar, enquanto o outro irmão, Leslie, tinha mania de armas e fotografia. Lawrence tinha 23 anos, mas Gerry apenas uns 10, quando foram para Corfu. O menino tinha mania de observar e criar animais.

O livro é o primeiro de uma trilogia sobre os anos em que a família viveu na Grécia. Gerald Durrel dizia que Corfu dera forma a sua vida e que se tivesse o dom de Merlin, daria a todas as crianças uma infância como a sua. Lógico que ele dizia isso de uma forma bem melhor do que eu (“My childhood in Corfu shaped my life. If I had the craft of Merlin, I would give every child the gift of my childhood.” ) Prestei atenção em Durrell ainda na Cultura Inglesa, ao ler um trecho engraçadíssimo de "My family and other animals", que li emprestado da biblioteca até conseguir um exemplar em português, editado pela Civilização Brasileira. É certo que pulava as descrições das descobertas do jovem Gerry para me concentrar nos relatos sobre o cotidiano da família. Muito tempo mais tarde, li "Birds, beasts and relatives", também traduzido, emprestado por uma amiga. Juro que me arrependo amargamente de ter sido honesta e devolvido o livro. Nunca mais encontrei, nunca o tive para ler. O terceiro volume, então, "The Garden of Gods", este eu jamais vi.

Por mais que eu gostasse de Gerald Durrell e de seu irmão mais famoso, não imaginava, então, que teria, em minha casa, uma modesta réplica do pandemônio zoológico de Corfu. Claro que nunca vivi nas vilas deliciosas que os Durrell puderam desfrutar na Grécia, nem dei a meus filhos uma infância tão libertária quanto gostaria. Mas, proporcionalmente, meus naturalistas tiveram tanta oportunidade quanto Gerry para observar a vida animal diretamente. Criada em apartamento, sempre convivi com passarinhos e uma tartaruga, Relâmpago, animais que pouco empolgam uma criança, mas dão aos pais a consciência tranqüila de que proporcionaram ao filho o contato necessário com o bichinho de estimação. Eu deveria ter seguido o sábio exemplo de meus pais, mas a gente sempre quer testar os limites humanos.

Enquanto meus filhos eram muito pequenos, bani passarinhos de casa e não permiti qualquer animalzinho, exceto por uma breve experiência em Rio das Ostras, quando tivemos dois cachorrinhos vira-latas, Paul e Linda, doados ao retornarmos para a cidade grande. No apartamento de minha mãe já estavam Fred e Ginger, um casal de diamantes gould e um casal de manons (Jean Paul e Simone). Era um tal de levar gaiolas de Ipanema para Botafogo e vice-versa a cada viagem de fim-de-semana que os pássaros viviam estressados. Pássaros que morriam em casa ou no veterinário, como um periquitinho de Oto. Sabia que o bicho ia morrer, mas e a dor do menino? Lá se ia dinheiro e vinham outros pássaros - Gala e Dali, Frederico e Giulietta, Elvis e Priscilla, Catarina e Petrucchio, Romeu e Julieta, Christian e Satine, entre mandarins, periquitos e agapornes. Até a chegada da dinastia dos Jason. Teve Jason I, Jason II e Jason III. A Viuvinha (uma mandarim que enterrou três maridos). O Indiana e a Blue, que durou uns três anos. Indiana está velhinho, mas resiste aos outros periquitos. Já desisti de aprender o nome dos seis atuais, mas um deles é Jason, claro. Temos também três pombinhas chinesas, que são lindas.

Como as crianças reclamassem a necessidade de um mamífero em casa, caí no conto do hamster. Na verdade, no conto dos quatro hamsters, um para cada filho. Na verdade, quatro fêmeas, que dividiam a mesma gaiolinha. Não queria mais que quatro hamsters. Um mês depois, eu tinha doze. Bit, uma delas, viera grávida. Foi ótima mãe, a Bit. Dei hamsters de presente a muita gente. Uma das filhas de Bit, Saturnina, também engravidou e comeu os filhotes. Foi a hora de acabar com a criação de ratos em casa. Como me livrar da bicharada sem o protesto das crianças? Comprei uma linda beagle, Zelda, que durou exatamente três meses no apartamento. Perdi sapatos roídos pela cachorrinha e toda a minha liberdade. Não havia como sair de casa. Ela chorava o tempo todo. A vizinhança reclamava. Foi-se Zelda e voltaram ... novos hamsters, peixinhos Beta e mais passarinhos.

Resisti o quanto pude a trazer gatos para nossa comunidade. Mas eles foram a melhor desculpa para me livrar dos hamsters, que viviam fugindo das gaiolas. Foi assim que Mel chegou em minha vida, seguida por Sol (que só ficou uma semana), Gal, Luz (que fugiu, depois de me fazer gastar uma nota no veterinário) e Jolie. São quietas, discretamente chorosas quando no cio, têm pavor absoluto de cruzar a porta e de estranhos em casa, e tentam, diariamente, alcançar algum pássaro no viveiro. Nossa última aquisição foi Valentina, uma tartaruguinha, que ganhamos ao visitarmos a casa da tia de uma amiga, na Vila da Penha, onde nada menos que seis tartarugonas, jabutis e cágados, passeavam solenes pelo quintal.

Embora todos os meus filhos gostem de animais, Júlia beira o fanatismo. Só desenha bichos, assiste ao Animal Planet com a fidelidade de uma noveleira, cata as lagartas das samambaias e guarda num vidro, coberto por gaze para observar sua transformação em mariposa. A primeira palavra que disse foi "Linda", para chamar a cachorrinha, em Rio das Ostras. Quer que eu compre uma casa para criar vários cachorros. Seu dia ideal inclui passeio pelo Zoológico ou, no mínimo, ao Jóquei, para ver os cavalos na pista, conversando com os tratadores. Paradoxalmente, tem pavor de mosquitos, besouros e baratas, embora o último caso seja mais que compreensível, já que faz parte da personalidade feminina. Como a mãe dos Durrell, eu aguardo que o talento aflore em cada um dos meus rebentos. E suporto até as visitas de uma rolinha, que vai comer alpiste todas as manhãs, no parapeito da janela, onde Júlia deixa um pratinho. Será a minha sina, que nasci no dia de São Francisco, abrigar tantas famílias de bichos?

2 comentários:

elaine disse...

Olá Olga,
Também sou fã de Gerald Durrel, de suas aventuras, persistência e redação. Não sabia que Larry havia ganho o Nobel de literatura... mas concordo com você em relação ao sucesso do "pequeno Gerald". Sua contribuição para a abordagem conservacionista em zoológicos foi fundamental para os progressos em manejo de espécies em cativeiro hoje. Parabéns pelo seu texto, muito divertido!

Anônimo disse...

Preciso ler esse livro o mais rapido possivel tenhu q fazer uma redação em inglês dele,tens algum site pra mim informar preciso da resposta até dia 26/11/11 obg