31.5.05

Além da Linha Vermelha





Hermes era o protetor dos viajantes na Grécia Antiga. Sei que São Cristóvão é o protetor dos motoristas, mas quem será o santo dos passageiros? A cada incursão profissional por este Rio de Janeiro adentro, imagino o quão maravilhoso deve ser viver em lugares calmos, pequenos, distantes dos grandes centros, ou talvez em países pequenos, com poucas paragens, que não exijam um deslocamento penoso. Algo assim como a tundra siberiana. Quem cai lá, sairá por quê?
Mas sou carioca, guanabarina (nasci no estado da Guanabara, só tive uma passagem de vida fluminense até chegar à idade da razão e tornar-me rubro-negra, claro) e jornalista. Ou seja, não basta ser classe média empobrecida, tem que sofrer para se sentir culpada e lamentar as condições de vida de quem mora no fim do mundo.
Estive perto dele. Deixei a reportagem, mas, como assessora de imprensa, tenho a função de acompanhar repórteres que fazem matérias sobre projetos patrocinados por minha empresa. Por isso, fui a Reserva Ambiental de Tinguá, um dos únicos recantos aprazíveis da Baixada Fluminense. Reza a lenda que no verão e nos fins de semana, a região fervilha de gente. Durante a semana tem gente também. Gente que encontramos na estrada e informa que a Reserva "ih, é longe. Segue por ali e vai ter chão. Você chega lá. Mas demora".
Demora mesmo. Na verdade, poderia demorar menos que 1h45m, tempo transcorrido entre Botafogo e nosso destino, caso o motorista do táxi:
1) soubesse o caminho;
2) dirigisse a mais de 65 quilômetros por hora;
3) mantivesse o pé firme no acelerador, sem reduzir a velocidade a cada três segundos.
O motorista, seu Fernando, português de 63 anos, 45 de Rio de Janeiro, separado da mulher há oito após três décadas de casamento, contava sua vida, reclamava do governo e proferia ditados populares enquanto pedia instruções pelo rádio aos colegas de cooperativa para chegarmos ao Hospital da Posse - ponto de referência para o destino final. A mulher de seu Fernando é que decidiu a separação, mas queria continuar como amante dele. "Isso eu não aceito, né, minha senhora! Casamento é igual cachaça: uma alegria no começo e muita dor-de-cabeça no fim". Ditado que se aplicava à nossa odisséia, já que, passada a Linha Vermelha, o ar-condicionado do carro pifou.
No Centro de Nova Iguaçu constatamos que indicação de trânsito por placas é raridade. Todos os motoristas parecem conhecer os caminhos, assim como os diversos pedestres consultados durante nossa travessia. Havia placas, nenhuma com o nome de qualquer rua, muitas indicando o Detran. Provavelmente, se fôssemos até o Detran, encontraríamos um serviço de informações acurado a respeito daquelas paragens. O Hospital da Posse só merece três placas. Afinal, é a unidade de referência da Baixada e, portanto, todo mundo deve saber chegar a ele sem necessidade de indicações por escrito.
Para compensar a ausência de placas, todas as lojas e biroscas pelas ruas têm seus nomes estampados nas mais variadas grafias (Kaktu é uma empresa de projetos de jardinagem, ou seja, uma loja de plantas, na qual não se vê um só cactus). Há muitas faixas anunciando shows como o de Rodriguinho (?), pela primeira vez em Nova Iguaçu, e o baile comandado pela MC Sabrina. Não sei se Rodriguinho e Mc Sabrina são artistas conhecidos. Talvez meu esnobismo explique minha ignorância a respeito da existência deles.
O desprezo pela sinalização é tamanho em Nova Iguaçu que, numa esquina de cruzamento (cruzamento na Baixada é mais ou menos como duelo em faroeste: é preciso ser muito macho para enfrentar, porque todas as ruas são de mão dupla, algumas subindo colinas e todos os veículos trafegam sem se importar com os demais) há quatro placas, duas encobrindo as outras. Para lê-las, é necessário aproximar-se da esquina (que, naturalmente, está na outra mão da rua, num morrinho) e tentar vislumbrar os dizeres, esmaecidos pela ação do tempo.
Pergunta daqui, pergunta de lá, alcançamos Tinguá, um lugar muito agradável mesmo.Difícil de chegar, mas bonito, fresquinho, muitas árvores. Numa das muitas estradas que trilhamos, bonitas casas de sítio, muros cobertos por bouganvilles, algumas fazendolas abandonadas, poucas ruínas, muitos ajuntamentos de imóveis modestos, só no tijolo, um ponto acima das favelas. Pracinhas próximas a escolas, muitas igrejas evangélicas (Universal, claro), apenas uma católica, um Ciep com a pintura descascada, um colégio particular. Adolescentes de bicicleta, jovens conversando, crianças indo para o colégio sozinhas. Minha estagiária observou que o local é muito tranqüilo, não corresponde à imagem aterradora que temos da Baixada. Mas não há emprego fora do comércio local, composto por biroscas e oficinas de ferro-velho. A sensação de segurança deve desaparecer à noite.
Acompanhamos a matéria, compramos souvenires - viagem é viagem; sempre trazemos lembrancinhas para os colegas, amigos e parentes - e retornamos. A volta é sempre mais rápida quando tomamos as mesmas estradas. É verdade que passamos sobre a linha férrea, que, em Vila da Cava é anunciada com uma placa monstruosa onde está escrito: TREM. Todos caminham sobre os trilhos, sem qualquer preocupação com o TREM. O aviso encantou seu Fernando, que aproveitou para engatar algumas piadas sobre o uso da expressão pelos mineiros.
Depois de mais algumas voltas erradas, consultamos outros pedestres, nos recusamos a dar carona para uma senhora que estava no ponto de ônibus - o que, na Baixada é reconhecível pelo ajuntamento de pessoas, já que não existe qualquer poste com os números das linhas que param no local - e, enfim, voltamos à Dutra. Seu Fernando informou que não podíamos oferecer carona porque as leis trabalhistas punem a empresa caso haja um acidente e tenhamos algum não-empregado a bordo.
Após 139,9 quilômetros de viagem, confirmo minha impressão: a Baixada tem vários fins de mundo e, em todos eles minha valente Elba 91 encontraria carros ainda mais mal conservados e idosos que ela. Em verdade eu vos digo: nesta carcaça carioca vive uma socialite fluminense.

5 comentários:

Lívia disse...

Depois de um dia deprê, nada como uma viagem cheia de aventuras, não é? Texto inspiradíssimo, Olguinha!

Gabriela disse...

Olguinha, minha socialite preferida, entre as melhores coisas de ler
este delicioso relato de viagem está tombar no texto que vem logo depois
- lindo, lindo.

Olga disse...

Desinformação, Andrea, quando se vive numa cidade com 6 milhões de habitantes, é algo bastante comum. Provavelmente, devido a minhas atividades profissionais, já rodei mais pela Região Metropolitana que muitos cariocas/fluminenses. Mas eu não tenho obrigação de conhecer a Baixada - uma região imensa - como a palma de minha mão.
Quanto a preconceito, isso é bobagem. Rir das lonjuras, dos costumes, da miséria em que vivemos é o melhor antídoto para enfrentar a discrepância brasileira. Preconceito tem quem quer glorificar a miséria. Quem acha natural uma vida de acordar de madrugada para servir à elite. Quem acha natural trocar carro de dois em dois anos. Quem acha natural ter que pagar plano de saúde porque a saúde pública, a qual todos temos direito, não funciona. Quem acha perfeito gastar uma fortuna em colégios, porque a rede pública de educação não ensina nada. Quem acha que a massa deve cultivar a vulgaridade como forma de expressão. Isso é preconceito, é manter tudo em seu status quo, sem qualquer tentativa de mudar as condições de precariedade em que convivemos com a desgraça em nossa soleira de porta.
Em tempo, adorei que você tenha me dado uma bordoada. É bom para uma reflexão sobre meus textos e para cuidar e não incomodar tanto. Volte sempre, Andrea. Você me estimulou!!!!

Lyra disse...
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Olga disse...

Um dos sérios problemas deste país é a falta de compromisso com o ensino. Aquele ensino que nos treina o raciocínio.
Minha intenção, em nenhum momento, foi a de ridicularizar a Baixada, mas sim falar sobre o contraste dos 'fresquinhos' ZSul, que são levados a um território desconhecido por um motorista ZNorte, que também se julga acima dos moradores de outros recantos.
Ironia é uma figura de linguagem. No entanto, o desconhecimento dela, incluindo aí o do termo fluminense, que abrange não apenas o território da capital, era um traço de união para o fechamento do texto.
E isso, só compreende, talvez, quem consiga sair do preconceito contra o que é diferente.