19.11.05


Anos atrás era um sábado, Dia da Bandeira e fazia um calor senegalesco. Nas escadas do Palácio Guanabara, eu acompanhava uma homenagem à bandeira comandada pelo Darcy Ribeiro que era vice-governador ou governador em exercício, não me lembro mais. Nem sei que coisas o Darcy falou. Só me lembro que uma aluna de escola pública desmaiou por causa do calorão. As crianças, coitadas, tinham ido participar da solenidade.
Quando eu era criança, em plena ditadura militar, fui avisada que teria 10 em Educação Moral e Cívica se participasse do desfile de 7 de setembro na Presidente Vargas, de uniforme de gala, ou seja, camisa de manga comprida, gravata e boina de feltro branco, combinando com luvinhas brancas. Eu fiz um fuzuê na sala de aula. Disse que achava um absurdo ganhar nota boa apenas por ir marchar na rua. Nem falei em casa, e hoje tenho certeza que meus pais não permitiriam que eu fosse. Eu adorava marchar na época pré-semana da Pátria. Em vez de jogarmos vôlei ou corrermos em torno do nada nas aulas de Educação Física, marchávamos por uma hora. Mas passar vexame na Presidente Vargas era demais para mim. Preferi decorar os símbolos da Pátria, cantar todos os hinos, incluindo o "Salve-lindo-pendão-da-esperança, salve-símbolo-augusto-da-paz", o meu favorito. Tirei nota 8, acho. E ainda fui chamada de antipatriota pela professorinha de direita festiva.
Fui educada para odiar qualquer regime totalitário. Minha mãe odiava Getúlio porque, em menina, fora obrigada a jogar livros de Monteiro Lobato numa fogueira, por ordem das freiras do colégio interno. Papai anulou voto sistematicamente até voltarem as eleições diretas para presidente da República. E se zangou quando me ouviu cantando "Eu te amo, meu Brasil". Mamãe gostava de cantar hinos em geral. Eu também. Adorava "hora cívica", que acontecia uma vez por semana ou por mês, dependendo das determinações da diretoria do colégio, pois cantava, por vezes três a quatro hinos, incluindo "Cidade Maravilhosa". Mal comportada, nunca pude hastear a bandeira, o que vim a fazer uma vez, na Câmara Municipal, convocada, num Dia da Mulher, por ser a única representante do sexo feminino em plenário, além de uma vereadora. Não foi apenas constrangedor. Tinha que hastear a bandeira durante a execução do Hino Nacional e não acabar antes do fim da música. Deu certo, mas eu puxava a cordinha em câmara lenta, apavorada com a possibilidade de errar o andamento e cometer algum ato antipatriótico. Suspirei aliviada ao fim do hasteamento, pois não havia incorrido em qualquer crime lesa-Pátria. Mas fiquei tão preocupada que nem pude curtir o momento de glória em que vivenciei um sonho de infância.

5 comentários:

ipaco disse...

Olguita, seu relato mostra como somos parecidos. Inclusive o hino da bandeira é também o meu favorito! Sempre odiei desfile cívico, e eu estudei em escola pública, onde tais eventos eram obrigetórios...

Eduardo Graca disse...

Amiga,

você me fez voltar aos comecinho dos anos 80, quando tinha de marchar em Volta Redonda enquanto soltava baixinho pragas e mais pragas contra o general (triste) figuraça-Figueiredo. O que eu mais gostava das semanas da pátria era quando meu avô materno, anti-americano, anti-fascista, anti-udenista, me fazia cantar, sem que meus pais soubessem o 'Laranja da China-Laranja da China- Laranja da Chi-ná! Limão doce-Limão bravo- e tangerina..." O Hino Nacional ficava tão mais alegre...A propósito, meu favorito sempre foi o "Japonês tem quatro filhos...", mas na versão original. "Já podeis da pátria filhos ver contente a mãe gentil. Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil"...

Olga disse...

Meninos, eu confesso que ser mulher tem uns pequenos inconvenientes hormonais. Eu me emociono com o único verso bonito do Hino Nacional: "Verás que um filho teu não foge à luta". E quase choro cantando.
Mas o resto da letra dá vontade de chorar de raiva. Uma música tão bonita com uma letra horrenda...

SilkSatin disse...

Muito da tua historia bate com a minha... nunca hasteei a bandeira e..
Eu também choro naquele trecho Olga... ainda mais agora que tou longe.
Agora eis algo mais que eu descobri sobre regimes totalitários: eles adoram chamar de patriotismo essas manifestações organizadinhas, onde os símbolos da patria são exibidos em cuidadosamente ensaiadas coreografias.
Isso e um apoio cego, sem questionamentos, do governo vigente.
Se falhar em um ou em outro, te chama de anti patriota.
Aconteceu ontem no Brasil, acontece no momento por aqui.
Eita dejá-vue infeliz!!!

Olga disse...

De direita ou esquerda, as ditaduras sempre armam um cirquinho com o tema "porque me ufano de meu país", né? Há algum tempo vi um documentário muito bom: "Assim cantava o comunismo", sobre a produção cinematográfica de musicais na antiga Cortina de Ferro. Era divertidíssimo. Boa parte dos musicais eram de exaltação ao proletariado e ao trabalho braçal. O doutrinamento chegava às raias do ridículo. O doutrinamento quase sempre é ridículo.