21.12.05

Admirável Mundo Novo da Gamboa


Minhas andanças atuais me levam a percorrer ruas antigas de bairros pobres, com casas centenárias em permanente risco de desabamento. Os carros têm cores que não se restringem aos tons metálicos preferidos por quem adquire modelos modernos - são magenta, azul turquesa, marrons feiosos, com crateras de ferrugem na lataria e peças que se mantêm agarradas à estrutura por singelas amarrações com barbantes.
Nessas ruas estreitas de pavimentação irregular, o capim brota exuberante nas calçadas que nunca conheceram pedras portuguesas, por onde passeia gente de pele escura, dourada no sol da labuta, cabelos compridos e encaracolados. Pessoas acostumadas a mostrar generosamente pedaços do corpo, sem importar se estão em forma. Um despudor alegre de roupas colantes que tapam pouco de pernas e braços. Seios pulam nos decotes inadequados às dimensões dos bustos fartos, pêlos em evidência sob camisas abertas para arejar o calor e deixar escorrer sem recato o suor provocado pelo clima perenemente abafado e úmido desses lugares.
As crianças são diferentes dos adultos. Também vestem-se modesta e exiguamente, mas as meninas têm cabelos caprichosamente arrumados em cachos arrematados por elásticos e prendedores coloridos. Os meninos, de canelas finas e compridas, jamais vestem camisas. A pele brilha, quando eles pulam alegremente, atrás de bolas murchas, em terrenos secos e poeirentos.
Até os cães são diferentes dos que conheço. Vira-latas usam coleiras e são conhecidos pela vizinhança. Não há cão de raça.
Em frente ao casario destelhado, homens e mulheres de cabeças brancas sentam-se em cadeiras de plástico. Acompanham a passagem dos carros que começam a trilhar aqueles caminhos. Entre os velhos, há mais gente de tez clara, muitos portugueses.
Durante o dia, as ruas têm vivacidade, mesmo nos becos de galpões imensos, antigos entrepostos de carga, fábricas, todos desativados. Caminhões ultrapassam os sinais de trânsito, que apenas os novatos na área respeitam. Os armazéns de esquina servem para guardar material de construção ou escondem oficinas clandestinas, sem placa indicativa, sem impostos recolhidos. Nos bares aos pedaços, quem pede informações timidamente é acolhido calorosamente pelo povo ruidoso e simpático. Numa esquina, uma loja com placa vende vasos, fontes e canteiros, além de estátuas em estilo grego-romano para jardins. Num muro, o aviso: "À 100m lava-jatos". Na outra esquina, uma plaquinha na árvore, com seta indica o local do lava-jato, um homem sem camisa, que usa uma mangueira para limpar carros.
À noite, os recantos tornam-se sombrios, tenebrosos, perigosos na quase total escuridão.
Um dia, há mais de 100 anos, ali foi um lugar pulsante, onde as pessoas conviviam em semi-escuridão pré-luz elétrica. Este imenso grotão de pobreza e decadência faz parte de minha cidade, muito embora eu tentasse não reconhecer como minhas as calçadas esquecidas pelas quais caminha um povo barulhento, de hábitos, alimentação e perfumes tão diversos dos meus, tão fascinantes para mim.
* A foto de Augusto Malta mostra o finado Morro do Castelo. Mas as construções da Gamboa são iguaizinhas, entremeadas por modernos edifícios de pilotis e pastilhinhas feiosas.

10 comentários:

Sonia disse...

Para mim o maior crime que se cometeu contra esta cidade foi a demolição do Morro do Castelo, com a fortificação original e do Colégio Jesuíta. É como se os ingleses demolissem a Torre de Londres para abrir espaço para a modernidade.

Olga disse...

Tão criminoso quanto a cidade crescer e deixar bairros no ostracismo, sem melhorias, sem qualquer investimento exceto os mínimos.

SilkSatin disse...

Lendo teu texto assim, na quase véspera de Natal, me deu uma saudade esquisita.
Me lembrei das minhas andanças por lugares parecidos, e de como a vivacidade e alegria de que minha gente é capaz mesmo face aos maiores obstáculos, costumava me causar estranheza, e comoção.
Ando aqui pelas ruas, e vejo um povo que mesmo com tanto mais, tem muito menos alegria de viver.
As caras sisudas, carrancas sem o sorriso luminoso dos rostos dourados e franzinos.
Me veio a música Gente Humilde na cabeça.
" E eu que não creio peço a Deus por minha gente. È gente humilde, ai que vontade de chorar."

Olga disse...

a Gamboa é totalmente gente humilde, Cy!

Marilia Mota disse...

Linda descrição, poética; provoca uma espécie de saudade, de nostalgia, uma sensação de perda e de fracasso.
Bjs
Feliz Natal.

ipaco disse...

Bela narrativa!

Olga disse...
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Olga disse...

Moçada,
Feliz Natal pra todos nós! E que vocês voltem sempre a trilhar estas areias daqui.
beijo grande!

SilkSatin disse...

Passando pra desejar um Feliz Natal proce Olga!!!

regina disse...

Tô te falando, Olga, você tem que escrever mesmo. Arranje um tema (será que alguém já escreveu sobre a Gamboa no Cantos do Rio da Rioarte?)e pense num livro.
Arrisque-se, ouse e faça. Vai dar muito certo.
bjs
Regina