24.3.06

Sob a desordem, a vida


No último Carnaval encantei-me por um jogo que conheci na Internet - Huntsville Mystery Cases. Não tem nada de especial, insta apenas a que se encontre figuras em desenhos onde aparentemente elas não deveriam estar. Violinos em barbearia, garrafas de refrigerante em tumbas de faraós egípcios, tacos de baseball em museus de história natural. Pois bem, minha casa está parecendo os diversos cenários do jogo. No móvel do computador, além de porta-retratos, livros, CDs e disquetes, mais livros e objetos de decoração, encontram-se mezzo camuflados copos, livros infantis, remédios, notas de dinheiro, um aparelho de telefone mudo que é para jogar fora, uma lista telefônica.
Alço meu olhar um pouco adiante, para uma sapateira/estante de livros feita sob medida para a família por Seu Carneiro, nosso falecido marceneiro. A caixa de CDRoms está encoberta por roupas displicentemente jogadas sobre os discos e também sobre livros e revistas. Acima, em prateleiras onde por muito tempo apenas porta-retratos e porta-jóias reinavam absolutos estão contas, mais CDs. Perto dali, sobre a televisão estão mais CDs e livros. E um cinto colorido da Júlia. Um batom.
Isso é só o meu quarto, um território livre e o cômodo de maior movimento na casa, não apenas por ser abrigar nosso único computador, mas por ter a melhor cama, claro. A mesa de cabeceira tem tantas pilhas de volumes diversos ("O Dia do Gafanhoto", "O Último Magnata", "O que faz Sammy Correr?", "Rapina", " Paixões", "Substantivo Feminino", "Música Fúnebre", "Artemis Fowl", "Lady Barberina/A Outra Volta do Parafuso", uma revista do Homem de Ferro importada, um telefone que funciona) desafiando as leis da gravidade e do equilíbrio mental. A estante de meu quarto também exibe corpos estranhos que se incorporam ao ambiente, resistindo a retornar a suas origens, como estojos de lápis de crianças, brinquedinhos que acabam sendo acatados como artigos decorativos.
O restante da casa está menos caótico porque não há como um neurótico suportar uma cozinha suja e banheiros desarrumados. A sala é rapidamente arrumável, os quartos das crianças têm portas que permanecem cerradas até meu próximo surto de Amélia, que ocorre, geralmente, a cada dois dias. Aí, eu boto tudo nos seus devidos lugares. No dia seguinte, as coisas começam a ressurgir, como animais que hibernavam e que aparecem com a primavera. E retomo a função de catadora-colhedora dos objetos abandonados fora de suas tocas, descobrindo sob cada peça de roupa largada sobre cadernos, brinquedinhos, bugigangas em geral, recordações, histórias, momentos gravados em tudo o que se esquece, o que o desleixo nos obriga a manter vivos, mesmo que camuflados.
Depois de 45 anos sendo servida, aprendo a tocar a vida. Começou o segundo tempo.

2 comentários:

Marilia Mota disse...

Está sem empregada, comadre? V. sabe que é delas que as brasileiras sentem mais saudades aqui em Washington? Observei isso numa redezinha de brasileiras vivendo aqui. Li a troca de e-mails - como todos se ressentem da falta delas!
Que fazem toda a diferença, isso fazem, pq manter ordem na casa, ainda mais com criança...tem muita coisa melhor pra fazer, ora essa.

Olga disse...

Resolvi que não quero mais ter empregada diariamente, depois de oito anos com Vanúzia, pois ela tem filhinha pequena, essas coisas. Então, mais do que eu me adaptar à liberdade, preciso acostumar meus filhos a esta nova situação.