4.7.06

Poeta, meu poeta camarada



É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Com indesculpável atraso, assisti a "Vinícius" ontem. E não comungo com o encantamento que a maioria da crítica - e do público - sentiu. Nada do que acontece na tela era novidade para mim. Os depoimentos são doces e alegres, mas o Vinícius que assoma é uma imagem patética de alguém alcoolizado, falando bobagens com os filhos, em ambientes melancólicos. Faltou, ainda, o lado do Vinicius que tanto trabalhou, com versos e letras, pela lírica brasileira. Aquela declamação de Camila Morgado e Ricardo Blat é muito chata. Melhor seria se resgatassem os poemas ditos pelo próprio Vinícius.
Talvez ainda o filme tenha me incomodado por me levar a concluir que a MPB, a partir da década de 80, tornou-se globalizada e pasteurizada, sem diferenciar-se do pop medíocre que se faz mundo afora. Mas o filme tem uma qualidade indiscutível, que é a de apresentar às gerações mais jovens, um homem que marcou o país por seu trabalho e por sua vida libertária. Um homem que se casava na praia, seguindo rituais africanos, provocando a ira de seus contemporâneos. Que falava palavrões com mais naturalidade que os apresentadores da MTV atualmente.
"Meu" Vinícius eu "conheci" em 1970, 71, quando foi lançada "A Tonga da Mironga do Kabuletê", música alucinada, com Monsueto vocalizando algo incompreensível e um corinho animado e risonho. Surpreendi-me que a voz mais jovial fosse a de um velhinho gorducho, de parcos cabelos sobre os ombros. Aprendi, com meus pais, então, que Vinícius era um poeta respeitável, que perdera o emprego de diplomata por comportamento boêmio, incompatível com uma das profissões mais maçantes que a humanidade criou. E o associei à "Garota de Ipanema", cuja lenda conhecia bem (assim como a canção, claro). Era ele o poeta que fazia galanteios às moças que seguiam para a praia, no bar da Montenegro que já adotara o nome da música.
Logo depois da "Tonga", veio "Tarde em Itapoan", um sucesso, uma delícia de canção. E fui pinçando o Vinícius em outras músicas, que minha mãe cantava, como "Se todos fossem iguais a você". Algum tempo depois, eu já era viciada em Vinícius, comprei uma antologia poética e decorei alguns sonetos.
O Vinícius mulherengo, do show no Canecão, do disco que gravei e ouvi até a exaustão, do "Samba da Bênção", dos sonetos apaixonantes, da "Carta ao Tom", do "Samba de Orly", o parceiro do Chico, do erudito Edu, do maestro Tom, todos se fundiram na mesma imagem - a de minha infância e adolescência, num Rio que era tão pequeno, onde personagens e seus admiradores se viam e se respeitavam. Vinícius continuou embalando uma geração após a minha, com as cantigas da "Arca de Noé". Uma geração que hoje batiza seus filhos com o nome do poeta.

2 comentários:

Jôka P. disse...

Ainda não peguei o DVD,Olga.
Tenho implicancia com documentários recheados de testemunhos e depoimentos elogiosos e comoventes enaltecendo o falecido poeta...deve ser meio assim, né?
bjs!

Olga disse...

Tem isso tudo, sim, mas vale a pena. É bonito, as músicas são maravilhosas. E serve pra gente lembrar de um Rio muito agradável.
Beijo!