11.9.06

Em Onze de Setembro, remexa a estante das boas lembranças


Numa data tão dolorosa, melhor pensar em construção e passar esta corrente, que fala sobre o bom que se traz para a humanidade.

Vinte histórias (11+ 9 - olha o uso cabotino de numerologia, "ciência" cabotina por ela mesma) que marcaram minha vida (infantis ou não)

1. O Pequeno Nicolau - Gracinha de desenho, gracinha de histórias: a vida de um menininho, seus pais e os amigos de colégio, na França da década de 60
2. A série de Laura Ingalls Wilder - Quem foi menina nos anos 60/70 leu e conheceu bem as aventuras de Laura e sua família em diversos estados norte-americanos. Viveram em Iowa, Minesotta e outras lonjuras, dentro de territórios dos índios. Parece que Laura deu um upgrade na história, cortando fatos desonrosos. Ficção em cima da realidade, os livros são lindos e com ilustrações lindíssimas que foram coloridas, decalcadas e rabiscadas por mim em diversas fases de minha vida. Laura quase foi o nome de minha Júlia.
3. Léxico Familiar - Nathalia Ginzburg conta com muito humor a vida de sua família italiana. Gostoso como um Fellini.
4. Os Meninos da Rua Paulo - A bela história do húngaro Fèrenc Molnar, traduzida pelo professor Paulo Rónai, me fez desejar ser menino e, um dia, ter aulas de química que utilizassem Bicos de Bunsen. A única tristeza - a morte de Nemetchec. Nunca tive João Boka como o protagonista.
5. My family and other animals - Que recebeu o título ridículo de "A Ilha Inesperada" aqui e me levou à leitura do irmão mais velho de Gerald Durrell, Lawrence. A meus filhos, bem eu queria dar uma infância em Corfu.
6. Bartleby, o Escrivão - A mais impressionante novela sobre o ser humano, de Herman Melville
7. Os Doze Trabalhos de Hércules - Todo o Monteiro Lobato foi amado por mim com intensidade, desde Reinações de Narizinho. Não li, apenas, o livro sobre Matemática, porque aí era demais... Por causa de Monteiro Lobato, que hoje, reconheço, tem um linguajar datado em demasia, me apaixonei por mitologia grega e toda a sorte de mitos que me levaram a compreender os arquétipos literários, a antropologia e a desvendar os mistérios da mente.
8. Um Capitão de Quinze Anos - Jules Verne escreve muita coisa melhor, mas este foi o presente de um estranho, que me indicou a existência da confraria dos amantes de livros. Eu havia descido a uma pequena livraria que ficava ao lado de meu edifício, na fronteira da Visconde de Pirajá com Francisco Sá, em busca de um algo para meu pai ou minha mãe. Acho que estava com minha tia e, depois de indicar o livro que deveria ser comprado (eu era menina, tinha uns doze anos e sabia exatamente o que eles queriam), fui fuçar as prateleiras. Minha tia decidiu comprar um livro para mim e eu escolhi algum do qual não me recordo. O moço da livraria, então, me indicou o "Capitão". Fiquei em dúvida sobre qual eu levaria. E ele disse: "Este é um presente meu para você, pode levar". Aí, fiquei espantadíssima, olhei para minha tia que me autorizou a aceitar. Vez por outra eu visitava a livraria, que acabou virando uma loja de molduras. Eles faziam um embrulho caprichado, com papel azul e uma linda fita azul clara com "rendinha" dourada.
9. Tom Sawyer - Também queria ser menino e viver as aventuras de Tom, o moleque endiabrado! Ou, no mínimo, ser sua namoradinha, Becky. Abriu minha cabeça para a literatura satírica e todo o Mark Twain.
10. Série "Glorinha" - Odette de Barros Mott escreveu livros "mulherzinha" para meninas exemplares, que integravam a coleção "Jovens do Mundo Todo", da Brasiliense. Glorinha era boa filha, boa irmã, boa namorada, bandeirante (eu queria tanto ser bandeirante!!!), vivia em São Paulo e ia à praia em Santos. Mas a leitura da vida da boa moça era muito agradável.
11. O Diário de Ana Maria/de Dany - Esses foram musts da educação sexual do século passado. Escritos por um padre (!), falava da curiosidade sobre sexo dos jovens Dany e Ana Maria e de como era importante se manterem puros e castos. Mas o bom mesmo eram os relatos do dia-a-dia dos adolescentes, que matavam aula para ver "Les Amants" e acabavam assistindo uma comédia de Louis de Funnes.
12. Histórias do Flamengo - Outro que envolve recordações confortadoras e o amor pela leitura. Era 1977 ou 78 e o Flamengo andava numa daquelas fases vexaminosas, tomando goleadas históricas do Botafogo, o de sempre. Eu tinha ensaio do coral na Cultura Inglesa e escrevi num quadro-negro: "Sempre Flamengo - Apesar de tudo!!!". Um senhor bem velhinho assistiu ao ensaio e depois perguntou quem escrevera aquilo no quadro. Informei que fora eu, pronta para a bronca - o velhinho era conselheiro na Cultura, e, naquele tempo, a gente estava sempre achando que poderia ter feito besteira. Ele me disse: "Vou lhe dar um presente". Voltou no ensaio seguinte com o livro de Mário Filho e me mostrou um pouco do amor pelo Rio e pelo futebol.
13. O Apanhador no Campo de Centeio - A fala de Holden Caufield, um garoto que levou bomba no colégio, e sua forma de ver o mundo é hipnotizante. Criou uma dependência de Sallinger em mim.
14. Junky - A fissura de Burroughs por qualquer droga pesada causa náuseas, mas fascina.
15. A Sangue Frio - Faz qualquer um querer ser jornalista. Recentemente vim a saber que Capote vendeu a alma ao diabo para escrevê-lo. Entende-se por quê.
16. A Casa de Papel - Um precursor de blogs, este livro me encanta desde a década de 70. Conta a história da família da escritora franco-belga Françoise Mallet-Joris, com muitas crianças, bichos, empregadas e agregados. Tudo sem muita ordem, como uma gaveta de escritos, um caderno de anotações. E tem uma passagem maravilhosa de um faz-tudo da família que reclama da vida porque é órfão. Como está com uns 60 anos, alguém lhe diz que nessa idade a orfandade é comum. "Ah, mas eu sou sensível!", retruca o órfão.
17. Um Ano na Provence - Um livro, que, como dia meu Tio Edson, aguça os sentidos, fazendo-nos sentir perfumes e sabores de férias, de sol, de obras, de viver bem.
18. Possessão - Este me pegou por um período, não queria jamais que acabasse a aventura de dois amantes de literatura à procura de um romance entre dois poetas e a disputa com um grupo de caçadores de manuscritos. Não entendo, até hoje, por que me apaixonei tanto por este livro de A.S. Byatt, que eu conhecera antes nos belos contos de "Histórias com Matisse".
19. Crônica de uma Morte Anunciada - Um script cinematográfico em forma de novela.
20. O Diabo no Corpo - Uma das mais bonitas histórias de amor descritas por um jovem.

4 comentários:

Jôka P. disse...

Le Diable au Corps foi filmado em pelo menos duas versões francesas.
Acho que a primeira tinha a linda Michelle Morgan.
A segunda, na década de 80 tinha cena de sexo explícito.
Entre as duas versões haviam diferenças abissais.
Au revoir !
:D

Olga disse...

Na primeira tinha Gerard Phillippe também, se não me engano.

Sonia disse...

Acabo de reler A sangue frio, que li pela primeira vez uns 30 e tantos anos atrás. O livro só cresceu com a releitura. Mas assim mesmo não tenho perdido um documentário sobre o 11 de setembro, que ouvi descrito ontem pr alguém na TV como "o dia que não acabou".

Jôka P. disse...

Tinha Gerard Phillipe, sim.