18.1.07

Marqueteiros

Eu tenho horror ao telemarketinguês, que conjuga erroneamente o gerúndio, pontuando com o vocativo "senhóora" ou "senhôrrrr", caprichando no sotaque paulistano anasalado. Uma moça dessas já disse que iria estar marcando o meu endereço. Não resisti e disse: "Olha só, me faça um favor. ESCREVA ou ANOTE o meu endereço. Mas não esteja marcando algo que não pode receber marcas nem deve ser adiado, como um programa". Lógico que a moça disse, "desculpe, senhóóra, não entendi" e eu desisti, enquanto ela deve ter ouvido outras admoestações de 338 mil pessoas. Depois, soube que o pessoal de telemarketing é campeão em afastamento do trabalho por problemas nervosos. Mas nada impede que de vez em quando eu perca a cabeça. Quando, por exemplo, um rapaz me pergunta animadíssimo se eu não quero fazer o sensacional cartão de crédito do banco XPTO. Respondo que não. E ele:
- Mas, senhóóra Olga, por quê?
- Porque não.
- A senhora poderia me dar uma razão para não aceitar, senhóóra Olga?
- Porque não.
(Em tom de indignação, alarme e espanto)
- É a sua resposta final, senhóóra Olga?
- É.
- Tem certeza, senhora Olga?
- Olha, não sei, não. Afinal, você está invadindo a minha casa, me empurrando um produto que não pretendo comprar. Posso dar uma resposta mais adequada e tão desagradável quanto sua intromissão em minha vida.
- Senhóra, o Banco XPTO agradece ....

Em outra ocasião, esqueci de pagar o cartão de crédito. Minha dívida era tão grande que o cartão mandava faturas apenas a cada três meses, quando as compras passavam de R$ 10. Até que me esqueci dele e fiquei devendo uns R$ 100. O animadíssimo telemarketingueiro perguntou se eu sabia que tinha a dívida.
- Ih, havia esquecido...
- Entaummm, senhóra Olga, vamos estar marcando uma data provável para estar agendando esse pagamento?
- Não.
- Por que não, senhóra Olga?
Àquela altura da vida, eu já sabia que bastava fornecer uma negativa ao operador de telemarketing para deixá-los desatinados.
- Porque não.
- Vem cá, a senhora sabe da dívida e não vai pagar, não?
- Ih, eu não falei que não iria pagar. Só disse que não vou marcar a data do pagamento com você.
- Mas senhóra Olga - ele começou a murmurar, recomposto, enquanto eu me irritava e explodia:
- Moço, eu não preciso lhe dar satisfações sobre minha vida financeira, certo?
- Então a senhora não vai pagar?
- Não sei. Tem algum problema?
- Pra mim, não, ora, não sou eu que vou ficar com o nome sujo no Serasa, ora!

Acho que esse moço, coitado, não deve ter permanecido na carreira. E a partir de então eu mudei minha forma de tratar seus colegas. Se me avisam que tenho algum débito, mostro-me desesperada. Eles me pedem calma e tratam de desligar correndo. A eles, o texto abaixo deve ser dedicado.


Manifesto antigerundista
Ricardo Freire



Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa estar
deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o futuro do gerúndio.

Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar enviando pela Internet. O importante é estar garantindo que a pessoa em questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo e, quem sabe, consiga até mesmo estar se dando conta da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar soando nos ouvidos de quem precisa estar escutando.

Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o maior número de pessoas infectadas por esta epidemia de transmissão oral.

Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha nas pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo.

Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim!, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito.

Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho.

Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar estourando. O próximo “Eu vou estar transferindo a sua ligação” que eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me responsabilizando pelos meus atos.

As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do dia-a-dia.

Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento por telemarketing. Daí a estar pensando que “We’ll be sending it tomorrow” possa estar tendo o mesmo significado que “Nós vamos estar mandando isso amanhã” acabou por estar sendo só um passo.

Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando os escritórios. Todo mundo passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações.

A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo invadido inapelavelmente pelo futuro do gerúndio.

A primeira pessoa que inventou de estar falando “Eu vou tá pensando no seu caso” sem querer acabou por estar escancarando uma porta para essa infelicidade lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas.

Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como “O que cê vai tá fazendo domingo?”, ou “Quando que cê vai tá viajando pra praia?”, ou “Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa”.

Deus. O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo o que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?

A única solução vai estar sendo submeter o futuro do gerúndio à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, como o “a nível de”, o “enquanto”, o “pra se ter uma idéia” e outros menos votados.

A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá insistindo em tá falando desse jeito?

2 comentários:

Sonia disse...

Os pobres atendentes devem me odiar, mas eu os interrompo a cada gerúndio para corrigir. Pior doi quando a orientadora educacional de uma escola (acredite), me telefonou marcando pra eu dar uma palestra na tal escola e veio com aquela de que eu estaria falando para tantos alunos, e que a escola estaria enviando alguém para me buscar carro, e dezenas de outras frases, com gerúndios mil.
www.contandocausos.blogger.com.br

Jôka P. disse...

Quando recebo essas ligações, pergunto logo, na bucha:
-"É telemarketing?"
Uma delas já me respondeu:
-"Infelizmente sim, senhor..."
Corto logo esse lance.
Pior ou tão irritante quanto o futuro do gerundio é uma mania medonha de paulistas de começar tudo o que diz com: "Entããão..."
E tem aqueles pobres (cariocas) que falam sempre:
-"Aí eu VIREI e disse..."
ou... "Aí eu PEGUEI e disse..."
E as caixas das SENDAS que se tratam de "NEM"...
-"Oi, NEM...tú já foi armuçá, NEM ?"
:D
Sou mau feito um pica-pau, Olga ?
Quáquáquá !
BeiJôkas