20.3.08

Salvação pela arte

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio

Marketing, agregar valor ao negócio e investimento cultural são expressões que entraram para o jargão do mundo corporativo há menos de cem anos. A disseminação dessas práticas, no entanto, vem da Idade Média, quando a expansão das atividades bancárias precisava driblar a condenação moral da poderosa Igreja Católica. Para expiar o pecado da usura, no qual incorriam ao liberar empréstimos financeiros, os banqueiros procuravam agradar ao clero patrocinando reformas de conventos e criações artísticas com temática sacra. Destacando-se nesse cenário, o Banco Medici se espalha por toda a Europa, chegando até a Ásia. Além de dominarem a cena política na Itália, os Medicis - que dirigiram o grupo por quase cem anos - foram pioneiros na utilização da arte para favorecer a imagem da instituição perante a opinião pública, "da mesma maneira que os bancos da atualidade se empenham em aparecer como patrocinadores da cultura", explica o escritor Tim Parks em "O Banco Medici - Poder, Dinheiro e Arte na Florença do Século XV" (Record, 280 págs., R$ 40,00).


Romancista e autor de alguns livros sobre a vida na Itália, onde está radicado há 28 anos, o inglês Parks recusou o primeiro convite de um editor americano para produzir uma obra sobre o Banco Medici. "A idéia era que leigos em economia escrevessem sobre assuntos financeiros. Só aceitei quando comecei a ler sobre o banco e compreendi que o tema central seria a tensão entre o valor contábil do dinheiro e o valor do que não é palpável, como lealdade, fé, amor e arte. Decidi, então, correr esse risco e passei dois anos em pesquisas, que, por fim, me divertiram muito, tanto que devo fazer algum trabalho sobre as mudanças que o dinheiro trouxe à indústria musical", informou Parks em entrevista, por e-mail, de sua casa, nos arredores de Verona.


A curiosidade e o fascínio que os Medicis exercem até hoje não se devem a inovações em prática bancária. Segundo Parks, a única contribuição deles nesse campo seria uma forma elementar de holding, quando o grupo diversificou seus investimentos. Os Medicis não criaram o mecenato artístico nem tiveram o maior banco de sua época, mas operaram uma das mais poderosas empresas do mundo renascentista, enquanto garantiam prestígio social e poder, patrocinando artistas geniais como Donatello e Michelangelo. "Até hoje muitos milionários gastam parte de sua fortuna montando valiosas coleções de arte para legitimar o dinheiro obtido em circunstâncias suspeitas", observa Parks. Nenhuma família no Ocidente foi tão poderosa e influente quanto os Medicis, que na atualidade corresponderiam a uma mescla de políticos como os Kennedys e os Bushs ("que criaram verdadeiras dinastias dentro de regimes republicanos", comenta Parks), conjugados a filantropos como os Guggenheims ou os Rockefellers.


Além de contar a história de cinco gerações da família, desde a criação do banco, em 1397, até a falência, em 1494, o escritor traça um panorama do período de transição do mundo medieval para o moderno. O crescimento dos bancos italianos estava diretamente ligado ao poderio da Igreja Católica, a maior entidade econômica internacional e, de acordo com Parks, "fonte de capital espiritual, político e monetário", que recebia doações e pesados tributos recolhidos por toda a Europa. Bispos e cardeais que atrasassem o pagamento das taxas devidas quando assumiam novos postos eram ameaçados com a excomunhão.


A complicada lei canônica buscava brechas teológicas na doutrina para atender aos interesses do clero, enquanto a legislação comum refletia o comedimento prescrito aos primeiros cristãos, vedando aos pobres a compra de diversos produtos e até de vestir trajes em mais que uma cor, um privilégio da aristocracia. A salvação eterna era objetivo da vida dos fiéis, que compensavam materialmente a igreja em busca da absolvição de pecados.


A necessidade de tranqüilizar as próprias angústias quanto à pureza de suas atitudes determinou a aproximação dos Medicis da Igreja, ao mesmo tempo que lhes outorgou poder político. "O fundador do banco, Giovanni di Bicci, só pretendia ganhar dinheiro. Sabia que era impossível ficar totalmente fora da política, mas mantinha uma vida discreta e recomendava ao filho Cosimo que não ostentasse a própria riqueza. Os dois eram profundamente religiosos. As quantias que gastavam em arte sacra e caridade indica a angústia que tinham para se livrar do estigma de pecadores", diz Parks.


Sob a gestão de Cosimo, o Banco Medici conhece seu apogeu, enquanto aumentava o prestígio da família. "Cosimo era um banqueiro por excelência, gostava de investir e expandir as operações bancárias. Foi ele quem começou, discretamente, a ser generoso com o patrocínio artístico, de forma a colocar-se no centro do poder. Vivendo em um mundo no qual a política supostamente não era influenciada por dinheiro e os religiosos criticavam as posses materiais visíveis, exceto se pertencessem à realeza, Cosimo foi forçado a inventar um novo papel para o homem rico. Ele fez isso por meio de uma política de investimentos em construção de igrejas e em arte. Sem dúvida, tinha bom gosto e contratava artistas excelentes, como Donatello, mas, quanto mais gastava, mais inimigos fazia. Sempre foi discreto. Sua grande satisfação vinha da sensação de que estava controlando diversas coisas", afirma Parks.


Um dos aspectos mais intrigantes da análise dos hábitos da família, para Parks, está na mudança dos objetivos e ambições dos Medicis. O mais renomado deles, Lorenzo, ao contrário dos antepassados, não tinha vocação para os negócios. Brilhava na política e nos círculos intelectualizados, mas contribuiu para a ruína da família ao autorizar empréstimos a nobres que não honravam seus compromissos. A relação com a Igreja Católica também se alterou. Embora fosse pai de um papa, Lorenzo não se preocupava tanto em agradar ao clero. Entretanto, não descuidava da própria imagem, garantindo a popularidade pelo patrocínio das obras de arte.
Segundo Parks, a ruína do Banco Medici seguiu a tendência de outras instituições bancárias da época: "Quase todos os bancos florentinos faliram no fim do século por uma combinação de circunstâncias que iam desde a redução do fluxo de importações de produtos do Sul da Europa pelas nações do Norte até o desinteresse das novas gerações de banqueiros em fazer dinheiro. Altamente refinados e bem-educados, eles delegavam as funções bancárias a empregados, distribuindo cargos entre os parentes."

2 comentários:

Eduardo Graca disse...

Cabeçérrima! Intelectual! Ilustrada! La Inteligetzia! Porca Miséria!

adelaide amorim disse...

Superinteressante, Olga. E perfeita, a resenha.
Beijo.