8.5.08

Futebol tem dessas coisas

O Flamengo já se encaminhava para a ser a potência dos anos 80, mas no fim da década de 70 aconteciam imbecilidades que o faziam perder títulos. Por causa disso, acabei conhecendo a história do Flamengo. Eu fazia coral, na Cultura Inglesa e dispúnhamos de um quadro-negro pouco usado. Depois de uma derrota pavorosa e internacional (uma Libertadores da vida ou aqueles torneios sul-americanos), eu escrevi no quadro, em letras garrafais: "Flamengo ... apesar de tudo".
Nessa mesma noite, apareceram uns diretores da Cultura no nosso ensaio. Um deles, bem velhinho, perguntou quem havia escrito aquilo no quadro. Temendo haver me estrepado (sim, eu já tinha alma de mãe judia, enxergando desgraça em qualquer acontecimento), informei que era a autora da pérola. Ele sorriu e disse: " Sou conselheiro do Flamengo há XXX anos - é provável que ele tivesse sido fundador do clube de regatas... - e vou lhe trazer um presente por causa disso". Fiquei surpresa, ouvi muita brincadeira dos colegas pelo namorado que conquistara e, no ensaio seguinte, lá estava o livro "Histórias do Flamengo", de Mário Filho, que conta de forma extremamente divertida a saga do clube e de como ele sempre teve uma política pautada pelo bom humor.
A cada derrota, que, lógico, como mulher não encaro da mesma forma que um homem, eu sempre me lembro do presente inestimável que este senhor, cujo nome não compreendo nas garatujas da dedicatória, um dia me entregou.

5 comentários:

Milena disse...

Olga, em maio de 68 eu não tinha nascido ainda. Mas eu me intrigo muito com esta data! Queria tanto entender o que foi aquilo! Tvz seja porque, mesmo sem querer, acho que o mundo perdeu um pouco daquela beleza vinda dos ideais! Ou sera que não?

Flamenguista, tô sempre de olho em seus textos! Um beijo.

Eduardo Graca disse...

Prsentinho de Tricolor para a amiga rubro-negra:

"O Fluminense não se conformava por Mário Filho nunca declarar-se tricolor. Todos os Rodrigues eram Fluminense e ele, que era o mais importante, não podia ser outra coisa. Então, por que não confessava? Já fora Fluminense, mas só até 1928, dizia Mário Filho. Desde então torcia apenas pelas 'seleções brasileira e carioca'. O Fluminense se conformaria com isso, se não suspeitasse que Mário Filho fosse secretamente Flamengo. Mário Filho negava que fosse Flamengo e o Fluminense acreditava. Mas, quando o Fluminense ia ver, lá estava Mário Filho cercado de seus amigos flamengos: Bastos Padilha, José Lins do Rêgo, Ary Barroso, Moreira Leite e, agora, Gilberto Cardoso, Dário de Melo Pinto e Fadel Fadel. Tinha amizades também nos outros clubes, mas com os rubronegros era diferente - parecia falar em código com eles. O Fluminense não achava isso certo. E havia umas coisas realmente difíceis de entender. A história de Dóri Kruschner em 1938, por exemplo. O grande treinador húngaro estava sendo importado por Arnaldo Guinle, presidente do Fluminense. E aí Mário Filho intrometeu-se e convenceu Bastos Padilha a desviá-lo para o Flamengo. Dóri Kruschner fez uma revolução tática no futebol brasileiro e foi o Flamengo que levou a fama. Depois, Mário Filho escreveu aquele livro maravilhoso, 'Histórias do Flamengo'. Por que não uma 'Histórias do Fluminense'? E ele vivia publicando coisas suspeitas sobre o Flamengo. Por exemplo: 'Por que o Flamengo se tornou o clube mais amado do Brasil? Porque o Flamengo se deixa amar à vontade. Não impõe restrições a quem o ama. Aceita o amor do príncipe e do mendigo e se orgulha de um e de outro. Se um flamengo matasse pelo Flamengo, seria um herói; se morresse por ele, um mártir ou um santo. O Flamengo nunca se envergonhou de nenhum jogador que lhe vestisse a camisa.' E por aí afora. Só de coração alguém escreveria uma coisa dessas, pensava o Fluminense. Mário Neto, que nasceu tricolor e viveu com Mário Filho a vida toda, sempre achou que seu avô era Flamengo, embora nunca admitisse. Uma das primeiras recordações de Mário Neto era a de um Flamengo X Botafogo em 1955, quando ele tinha 8 anos. Jogo duro. Quando Dequinha fez o gol que seria o da vitória, Flamengo 1 X 0, Mário Filho pulou da cadeira, em pleno ar, sentiu que não devia fazer aquilo e passou o resto do jogo quieto, mas feliz.
Mas, para Mário Neto, a prova definitiva foi um fla-flu de 1959. Mário Neto queria uma bandeira do Fluminense. Mário Filho deixou-o comprar, mas obrigou-o a comprar também uma do Flamengo. 'Fica melhor assim', disse. Só que a do Flamengo, escolhida por Mário Filho era o dobro da bandeira do Fluminense. O tricolor ganhou por 2 X 0, gols de Valdo e Telê. Mário Filho voltou amuado para casa e não deixou o neto abanar sua bandeira pela janela do 'Buick' preto. O motorista de Mário Filho, o Chaves, sempre de farda, quepe e luvas, achava graça. Sabia a diferença que uma vitória ou derrota do Flamengo provocava no humor do patrão."

(Castro, Ruy. O Anjo Pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues. Cia das Letras, 1994. pp 258-59)

Olga disse...

Ai, Edu, eu sei o quanto é difícil romper com a família por futebol.
Agora, o que vale é que permanece em mim uma tremenda paixão por alguns tricolores. Afinal, os homens mais importantes da minha vida, você entre eles, torcem pelas três cores que traduzem tradição, né?
Beijo

QuincasB disse...

tô a cá repetindo, quase mantra: apesar de tudo... apesar de tudo... talvez com tequila descesse mais fácil

Olga disse...

Milena, eu também não entendia bem o que acontecia naquela época, mas tinha pais extremamente ligados em política, então aprendi cedo o que era ditadura, regime de exceção e a odiar a falta de liberdade de expressão. Minha visão era da criança que via o "Brasil Grande" enaltecido pelos generais e era censurada pelos pais se cantasse "Eu te amo, meu Brasil". E sabia também que não poderia falar sobre política fora de casa. Tempos comoplicados.