15.8.08

À mercê da indústria cultural

Cedo na vida descobri que meus gostos não eram muito convencionais. Embora adore perder tempo em frente a telas e encare sem o menor temor um bom filme-pipoca, sempre fui muito exigente para conferir um selo de qualidade. E, arrogante que sou, não consigo compreender certas paixões como viajar para o Disneyworld, assistir novela e ver qualidades musicais em Madonna.
Não é que eu seja tão requintada assim. Fui a Orlando aos 12 anos conhecer o parque recém-inaugurado e visitar a NASA. Minha boa lembrança da viagem foi uma igreja de quase 200 anos, marco do primeiro núcleo habitacional da futura Miami ou coisa que o valha. Eu já era uma alma anciã naquele tempo. Ah, gostei também do cinema espetacular de Orlando, então uma cidadezinha, que passava uma produção Disney estrelada por Dean Jones, o "dono" do Herbie, o Fusquinha. Comprei três Barbies,uma revista com bonecas de papel, um chapéu de feltro, um ursinho Puff e três discos: a trilha sonora de Cabaret, a de Mary Poppins e Supernatural, de Stevie Wonder. Com exceção das Barbies, nada que eu não fosse comprar hoje, 35 anos depois.
Novelas, assisti apenas depois de ter televisão, aos 26 anos. Meus pais eram contra a máquina de fazer doido, como dizia Stanislaw Ponte Preta. Então, vi Rainha da Sucata, Brega e Chique e Vale Tudo. Gostei de todas, mas não tive paciência para acompanhar mais nada. Quase vinte anos depois, vi O Cravo e a Rosa. Fico completamente passada quando as pessoas comentam a vida de personagens de novela com a maior intimidade, igual a homem falando de jogador de futebol e de jogadas espetaculares.
Por fim, Madonna. Eu adorei Procura-se Susan Desesperadamente e só! Ah, também gosto do clipe do Material Girl. Acabou. Não consigo perceber qualidade artística na mulher que canta sem a menor sensibilidade vocal. Algo assim como a super simpática Ivete Sangalo. É animada, divertida, mas... falta alma. E olha, sou pop pacas, gosto muito de Michael Jackson, que já se requebrava todo no palco, com um molejo muito mais natural e fascinante que a Madonna, que não consigo ver nem como divertida. Francamente me espantou quando uma mulher me disse que tinha Madonna como ídolo e que procurava seguir seus ensinamentos de vida.
Isso tudo é porque eu acabo de receber uma biografia da Madonna. Parafraseando um amigo, a importância que dou à Madonna é a mesma que ela me dispensa.
Estranho neste mundo de mass idols é encontrar talento na maluca de carteirinha Winehouse, ou gostar de mocinhas como a galesa Duffy, que tem uma voz chatinha, mas gravou um belo álbum, cujo carro-chefe é Mercy.

3 comentários:

Miguel Andrade disse...

"Fico completamente passada quando as pessoas comentam a vida de personagens de novela com a maior intimidade, igual a homem falando de jogador de futebol e de jogadas espetaculares." Heheheh Idem!

Olga, belo post! Embora o lance da Madonna, vejo graça justamente nisso tudo que vc falou... Muito trash! Nossa, mas os discos dela pioraram nos últimos tempos assombrosamente!!!!!

E o ruim de novelas são aquela porrada de núcleos. Os desinteressantes me fazem mudar de canal a ponto de esquecer que estava vendo a novela. Todo santo dia!

Caco disse...

É, acho a Duffy um grande acidente, apesar da bela voz (ouça Warwick Avenue). Madonna é um constante divisor de águas no pop, sempre um passo à frente. Escute Adele (Chasing pavements).

Cheguei aqui porque postamos a mesma foto do Caymmi. Muito legal o seu blog.

paçoca disse...

Olga,
concordo com tudo neste post. Já vi muita novela apesar de poder viver perfeitamente sem elas. Acho que estas três preferências pertencem à mesma categoria de público.
Um beijo da Paçoca