11.8.09

Memórias cinematográficas



Esta foto é de 1960, mesma safra que a minha, e mostra o Cine Botafogo, que cheguei a conhecer - e a ir, uma só vez, com meus pais. Mas não me lembro do filme, só de cadeiras duras, de madeira.



Já deste me lembro mais, o Miramar, na Praia do Leblon. Fui algumas vezes, também criança, não me recordo a que assisti lá. Em Cada Um com Seu Cinema, uma produção que comemorou o 60° aniversário do Festival de Cannes, com diversos diretores apresentando curtas de três minutos, o de Nanni Moretti, O Diário de um Espectador, fala sobre a memória afetiva que temos dos filmes e das salas em que os assistimos. Fala mais, claro, mostra a vida integrada ao cinema.
É um pouco frustrante, para mim, saber que estive nesses locais, mas não haver registrado o que vi.
Porque me lembro bem de tantos outros cinemas que se acabaram e do que assisti neles. No Caruso, em Copacabana, vi A Mulher do Lado, Barry Lindon, Tommy (umas 800 vezes), festivais de cinema francês. No Cinema I, descobri Eric Rohmer, com A Marquesa D'O. No Bruni Copacabana, Amor e Ciúme, de Lina Wertmuller, com Sophia Loren, Marcello Mastroianni e Giancarlo Giannini afinados em performances soberbas. A Oitava Esposa de Barba Azul e muitos filmes dos Irmãos Marx, no Cinema II. Risky Business, com Tom Cruise dançando de cuecas, no Imperator - sim, eu ia longe para ver o que me interessava. Silverado no Art-Copacabana, tudo quanto era estréia boa no Veneza, uma das piores localizações da cidade e sala pavorosa, com pouca inclinação (Arrastei meus pais e meus tios, em troca de uma carona em meu carro, a verem lá, comigo, Give My Regards to Broad Street, um filme de e com Paul McCartney, prá lá de ruim). ET e O Ano em que vivemos Perigosamente, no Condor Copacabana (com todo mundo fazendo "Schiiiiiii!" pro condor voar na tela antes do filme começar). Cidadão Kane, a primeira vez, no Pax. A Pantera Cor-de-Rosa, no Copacabana (que era bom de entrar em filme proibido para menores de 14 anos, aquele friozinho na barriga... entrava na matinê e me escondia no banheiro antes de começar a soirée; depois de iniciada a sessão, o lanterninha esquecia da gente). Caçadores da Arca Perdida no Ricamar, Carrie, a Estranha, no Coral, seguido por uma imediata sessão de Grease, no Scala, para nos acalmarmos do impacto daquela mão saindo do túmulo, reconhecendo, no escuro, sessão já começada, a voz de David Bowie, e por isso já gostando de Cat People, no Bruni Flamengo. Morrendo de calor com a sensualidade de Corpos Ardentes, no Rian, cuja platéia se transformou em torcida de futebol, comemorando gols em Fuga para a Vitória.
No Jóia, o primeiro filme proibido, de 18 anos, Frenesi, de Hitchcock, numa tarde depois da aula de datilografia (!) no Senac. O Pirajá também tinha um grupo de porteiros que jamais ligavam para a idade dos espectadores, mas só me lembro de assistir lá Sunshine, um dramalhão embalado por músicas de John Denver, que cortava o coração das adolescentes nos anos 70. Comprando as entradas para Romeu e Julieta, de Zefirelli, ouvi adolescentes chorosas comentando: "É lindo! Sabe que agora tem o livro?". Acho que o último filme que vi no Bruni, em frente à Praça da Paz, foi O Casamento do Meu Melhor Amigo. Na fila de entrada, uma amiga avisou: "O amigo gay é tuuuuudo!!!!!".
Golpe de Mestre
, assisti sozinha. Marcelo, Carlos Augusto e Martha foram barrados, enquanto eu, tão jovem quanto eles, entrei impávida no Condor Copacabana. Pra compensar, fui com Marcelo ver Tubarão 3 no mesmo Condor, que começava a febre das pipocas durante a sessão. Saí pra comprar pipocas, tropecei em alguém e não sobrou um grão de milho para degustarmos durante o filme. A gente ia tanto ao cinema que uma noite de sábado nos apertamos no carro para ir ao Drive In da Lagoa assistir a Um Viúvo Trapalhão, horrível, com Walter Matthaw, apenas pelo prazer de ir ao cinema - percebendo que éramos o único veículo de espectadores naquela imensa corrida de submarino.
Inocência igual a de anos antes, quando vi, pela primeira vez, no Poeira, da Praça General Osório, O Mágico de Oz. Duas sessões seguidas, porque minha mãe tinha a paciência que eu viria a descobrir quando chegou a minha vez de assistir à trilogia Indiana Jones de uma vez só, por semanas a fio, quando Júlia era criança e puxava qualquer um para ver as aventuras do arqueólogo.

Se eu me lembro de tanta coisa, como esqueci o que vi no Botafogo e no Miramar????

E segue Nanni Moretti, que sabe misturar recordações, vida e arte.

10 comentários:

tertulías disse...

MARAVILHOSA ESTA POSTAGEM!!!!!!!!!!!

tertulías disse...

"Sabe que agora já tem o livro?" quase me matou... Olga, I love you!!!!!!!!

Marcia disse...

Amiga, lembra quantas vezes fomos assistir Greese no Roxy? O bacana foi Julia, quando vc comentou sobre o nome lindo que tempos depois seria da minha afilhada...
bj Marcia

Olga disse...

Ricardo, quando escrevi este post imaginei que você iria gostar muito de lembrar os cinemas da cidade.
Amiga, acho que vimos Grease umas seis vezes no Roxy e essa no Scala, depois do Carrie, absolutamente em pânico. Estávamos com a Carolina. Lembrei-me também de Poltergeist, que a gente viu no Condor Copacabana, absolutamente histéricas, gritando o tempo todo...
Júlia, a gente viu no Rian, acho. Mesmo cenário de uma inesquecível sessão de Laranja Mecânica, com direito a bolinhas perseguindo os atores pelados numa cena de curra!!!!

Jôka P. disse...

Oi, OLGA !
Laranja Mecânica vi no Veneza, assim como O Exorcista e Love Story.
No Roxy foram dezenas, mas lembro muito dos catastróficos King Kong, Inferno na Torre, Terremoto e principalmente o Destino de Poseidon.
No poeira Cine Botafogo via sessões duplas de filmes impróprios pra menores, com carteirinha falsificada.
Algumas vezes ia depois do colégio (Andrews).
Tinham também o Scala e o Coral, assim como o Ópera (Casa & Video)bem ao lado da escola, nesses eu ia menos. Mas ia também.
O Cinema 1 era antes o Paris Palace, na Prado Júnior ?
Não lembro do Cinema 2...
Fui muuuuito ao Cine Copacabana, pertinho do Metro Copacabana e do Art Palácio Copacabana(hoje também uma Casa & Video ou sapataria Paquetá?).
Mas o meu cinema favorito, disparado o que fui mais vezes, era o Cine Ricamar, ao lado de minha casa. Ia muito com a minha avó, vi quase tudo de Jerry Lewis em sessões matinais. Lá vi "Copacabana me engana", um fetiche.
Hoje em dia quase não vou mais ao cinema. Também, aqui em Copacabana só tem o Roxy. E no Roxy só passam porcarias tolas, detesto a maioria dos filmes brasileiros, pancadaria´s movies, Julia Robert´s movies, aventuras de super heróis, nheco-nheco e comédias mulherzinha.
Então acabo ficando em casa, assistindo DVD ou tv a cabo.
Bjs, saudades de um papinho "ao vivo" com você.

Jôka P. disse...

PS: gosto de filmes franceses, ingleses, filmes com conteúdo gls, road movies out of stream, terror europeu e cinema fantástico, tipo "Festival de Avoriaz".
Mas tenho preguiça de pegar o Metrô e ir aos alternativos
Espaços Botafogo, cineclubes, etc...

Olga disse...

Vou falar com o pessoal do Grupo Estação pra abrir algumas salas em Copa!!! Jôka merece!!!
No post, não mencionei o Roxy porque me ative a cinemas já fechados, Jôka.
O Cinema II hoje é a Le Boy ou a La Girl. Teve o nome de Riviera nos tempos d'antanho.

Jôka P. disse...

Ah, é mesmo ! Era uma cinemão no subsolo ! Lembrei ! Sabe que fui ator por um curto tempo e protagonizei um filme ? Chamava-se "Historia de Borboletas", era um curta dirigido pelo Flavio Colker baseado no conto do Caio Fernando Abreu. Lembrei disso porque "me" assisti exatamente nesse cinema onde hoje fica a Le Boy. Em tempo: eu era o cara que fica louco, vai parar no hospício e... aparecia pelado.
Uia !
;)

FreakShowBusiness disse...

Que inveja! Sabe que não sou capaz de associar um filme a um cinema? É raríssimo minha memória guardar essa informação, de onde assisti a um determinado filme...

Olga disse...

Jôka, pelado e maluco. Que SHOW!!! Tem no You Tube, tem?
Bj.