10.8.05

Fashion Rio


Quando eu era criança, existia uma peça de vestuário chamada saída de praia. Geralmente, era fabricada em tecido atoalhado e seguia um modelo entre o robe de chambre e o vestidinho. Não sei o que as mulheres mais velhas usavam. Eu tinha uma saída confeccionada pela costureira (mulheres que iam em nossa casa e faziam três vestidos por dia), um vestidinho atolhado de listras azuis sobre fundo branco, enfeitado nas cavas com uma sianinha vermelha. Acho que ninguém no mundo usou tanta roupa com sianinha como eu. Quando não era sianinha, era rolotê ou debrum.
Na pré-adolescência, abandonei a saída de praia, que servira também para ir à natação. Eu detestava sair de madrugada com meu pai de Ipanema para a Gávea, enfrentar as piscinas do Flamengo. Na volta, por vezes, eu trocava a roupa e podia me sentar no ônibus. Papai ficava assistindo aos treinos de futebol, vendo as broncas que os jogadores levavam de um técnico chamado Yustrich. O detalhe é que Papai era Fluminense doente, mas, como todo homem, apreciava qualquer pelada de praia.
O que mais me irritava na saída de praia era que aquilo não combinava com absolutamente nada. Usá-la na rua, para mim, era um constrangimento comparável apenas à vergonha de estar com blusa semitransparente que permitisse a visão de meu sutiã. Isso porque, precoce, comecei a usar sutiã com 7 anos, pois, como se dizia naquele século, era “muito desenvolvida para a idade”. Aos 10 anos, quando fui aprender a nadar corretamente (embora criada na praia, sabia me virar no mar sem dar uma só braçada), a saída de praia atravessou outros bairros, para mim, extremamente distantes do Atlântico, onde ninguém passeava sem estar convenientemente trajado. Era uma época bem formal, em que homens vestiam camisa para ir à praia e ninguém se sentava nos bancos de ônibus se estivesse molhado ou sujo de areia.
Na maturidade da pré-adolescência, esqueci a saída de praia ao lado da esteirinha que também se usava. Papai tinha uma cadeirinha de madeira e lona, com assento de ripas que se encaixava no encosto. A mim, cabia a esteira, que abandonei pela imensa toalha listrada da Artex que minhas tias de Santa Catarina me enviaram antes do lançamento nacional. A toalha, literalmente, deu na praia, mas eu me sentia uma vanguardista por ter sido uma das primeiras garotas a estendê-la nas areias de Ipanema. Fazia montinho e me deitava sob o sol por pouco tempo. O calor me obrigava a disputar a sombra da barraca com Papai, naquela era pré-filtro solar, em que as meninas se besuntavam de óleos de bronzear. Eu passava óleo de amêndoas e ficava na sombra. Saía mais escura do que as moças-jacaré, pois vinha de uma longa linhagem de morenos naturais.
Naquela época surgiu uma moda atroz, de substituir a saída de praia pela toalha enrolada no tronco. Parecia que a gente havia saído do banho, mas as toalhas, além de enroladas, eram presas por imensos alfinetes de fraldas. Houve um breve período em que aderi a umas saídas esquisitíssimas, rendadas, brancas e esvoaçantes, complementadas por imensos chapéus de palha. Depois veio a moda das camisas de homem. Invadi o armário de Papai e surrupiei camisas sociais que ele não usava desde os tempos de solteiro, mas guardava porque era colecionista por natureza. Os chapéus foram se reduzindo, mas eu não os dispensava, pois meus cabelos ficavam muito queimados no sol e, naquela fase do século XX, melenas claras demais era coisa de surfista ou de mulheres que “oxigenavam” as cabeleiras. Em meados da década de 70, Papai já fora dispensado como meu acompanhante praiano - Mamãe não ia à praia, mas obrigava meu pai a me acompanhar - e eu trocara os camisões pelas cangas.
Atualmente, vou de roupa para a praia (blusa, canga curta, como saia, ou de short), coisa que nos anos 60 e 70 era bcaracterística dos farofeiros, que vinham dos subúrbios carregando caixas de isopor, com lanches. Usavam roupas porque tinham que pegar ônibus onde plaquinhas informavam a proibição de viajar sem camisa, advertindo que o passageiro que insistisse seria retirado do veículo. Comer na praia era considerado brega. Só se bebia mate, limonada, tomava sorvete, comia-se biscoito Globo, ou aquele pirulito esquisito que a gente chamava de “tlique-tlique” ou "ligue-ligue", vendidos pelo mesmo homem que oferecia biscoitinhos em canudinhos e bolinhas de sabão. Os sanduíches naturais chegaram nos anos 70, é verdade, mas os bons cervejeiros ficavam no Jangadeiros, no Barril, nunca perto do mar.
Os costumes se modificam em quase meio século. Não há mais saídas de praia. Mas os quimonos atoalhados continuam circulando pela cidade, envergados por senhoras que fazem hidroginástica ou criancinhas a caminho da natação. As crianças ficam muito bonitinhas com aquelas roupinhas, claro. Mas os adultos parecem pacientes que escaparam de um sanatório. Sempre que encontro alguém assim trajado, olho para o outro lado. Sabe lá se não é um maluco que fugiu da Doutor Eiras e resolveu passear por aí, disfarçado de atleta da Terceira Idade?

Na foto, Ipanema, nos anos 70.

3 comentários:

Rosane Serro disse...

Olguinha:
As saídas estão voltando!!!!!
Atoalhadas, de uma cor única, com um fecho-ecláir na frente, sem mangas, sem sianinhas, modelo 2001 Odisséia no Espaço.
Servem para as mulheres, antes de serem senhoras, irem e virem da hidroginástica sem apelar para o roupão.
Podem ser encontradas na Catram. E são caras!!!!
Mas absorvem a água da piscina (se você morar perto da hidro) e impedem o vexame de andar por aí com aqueles círculos molhados na roupa em lugares estratégicos...

Olga disse...

Meu amor, na Catram???? Quer loja mais "Hermínia" que a Catram?
Eu tenho HORROR a tecido atoalhado off home. E mesmo assim, só uso do banheiro para o quarto...

Rosane Serro disse...

Ah, Olguinha...

Eu moro na Glória com Catete e a hidro é às 6h da manhã. Ninguém nem vai pensar nisso... Além do mais, nesse horário eu não sou ninguém, portanto, se bobear corro o risco de sair de combinação, tamanha a nebulosidade da minha mente.

Portanto, Catram ou não, Hermínia ou não, não há chance de eu me dar conta do que estou vestindo e os moradores do Catete tampouco. Pode ser saída atoalhada, turbante de Carmen Miranda, bustiê de pareô.
Então tá tudo certo!