26.12.05

Natal sempre foi uma festa estranha para mim, menina que não acreditava em Papai Noel por conta de pais intelectualizados e temerosos do trauma da frustração pela descoberta da não-existência de figuras mágicas. Mais esquisito que esses pais vanguardistas era ter uma família que se reunia para almoços de Natal, não para ceias, hábito iniciado quando minha avó foi morar em uma casa geriátrica por desejo próprios (uma família estranhíssima, já disse) e precisava participar da festa natalina com as companheiras de dia-a-dia.
Eu queria Natal com árvore enfeitada, casa toda macaqueada. Faço isso todos os anos. Meus filhos acreditaram em Papai Noel e coelhinho da Páscoa, até na Fada dos Dentes. O ideal hollywoodiano do White Christmas (sou mais o de Dickens, no belo "Conto de Natal") é tão forte que um Natal foi a minha referência para os parágrafos iniciais de minha tentativa de romance "Novela Familiar", ainda não terminada.
Seguem aí os ditos parágrafos, que são precedidos por um outro, que nada tem a ver com o Natal.

"Minha família se definia por esses silêncios constrangidos. Era uma falta de intimidade desconfortável. Nunca se imaginava que nos amássemos. Não havia beijos estalados, abraços apertados, beliscões na bunda das crianças, cosquinhas. Só cantávamos juntos “Parabéns para você”. Até as brigas eram arroubos, desabafos, a verdade que saia vomitada, depois de comprimida, sufocada. O carinho com as crianças pequenas era comedido. Na verdade, poucos tinham ou exibiam seus bebês. Éramos aristocráticos. Sem grandes recursos financeiros, mas nobres.
As festas constituíam suplícios que cumpríamos com o estoicismo dos ateus em missas de sétimo dia. Jantares de Natal ou aniversário se resolviam em três, quatro horas no máximo. Enquanto todos os cristãos se reuniam para a ceia natalina, nós fazíamos um almoço na véspera do Natal. Lá pelas seis da tarde partíamos, aliviados, cada qual para sua casa ou para festas de amigos ou de parentes “do outro lado”. Duas tradições eram mantidas nesses Natais. Quando havia crianças, os presentes eram deixados dentro de um saco vermelho, na porta, por um Papai Noel que não se via. E eu roubava rabanadas, passando para minha mãe, meu afilhado ou meu padrinho, antes do início da refeição principal. Vovó Antonina e Tia Gertrudes, as coordenadoras dos eventos, ficavam furiosas com a transgressão cometida por mim todos os anos, a fim de me assegurar que pertencia a uma família normal, daquelas que cultuam piadinhas e risadas cúmplices."

Não, minha avó não se chamava Antonina, nem tenho uma tia Gertrudes. Mas o Natal era assim mesmo. Algo que deixava apenas a sensação do dever cumprido.

3 comentários:

Marilia Mota disse...

Olga,
Gostei muito do tom contido do texto, a forma dando força ao tema, tão eficaz que está doendo em mim também.
Bjs
Feliz 2006.

Marcelo disse...

Com a correria desse fim de ano, acabei não te linkando. Faço isso na segunda, tá? Beso e feliz 2006!

ipaco disse...

Também sempre tive um mal-estar nessas festas. Na minha época de revolucionário, achava que era uma invenção do capitalismo selvagem pra gente consumir desenfreadamente. Hoje, aproveito para curtir a família.

Feliz Ano Novo!