1.1.06

Saravá!


Ano novo tinha festa, beijo nos pais à meia-noite, mais festa e às 5h, com os amigos adolescentes, uma caminhada até a Praia do Diabo. A única data no ano em que podíamos brincar de adultos, voltar para casa com o sol batendo no rosto. A vida era dourada (não tanto quanto a imagem amarelecida pelo scanner enlouquecido), nem todos vestiam branco, cor mais associada aos macumbeiros que levavam oferendas para Iemanjá nas praias escuras, iluminadas apenas pelas velas e animadas pelos cantos e danças dos cultos.
À praia à noite ia Maria, minha babá, na época voltada para o sincretismo católico-africano. Alguns vizinhos jogavam palmas brancas no mar. Uma só vez, fomos fomos ver baianas dançando, fumando charutos, incorporando entidades. Meu tio Beto, de Florianópolis, queria conhecer o ritual e ficou amedrontado. Naquele tempo não era politicamente incorreto chamar afro-fiéis de macumbeiros. Vinícius de Moraes deu um toque aristocrático à fé de nossos antigos escravos, tão democrática, tão acolhedora, tão malandra que incluiu os santos católicos para disfarçar seus deuses e acabou criando uma nova corrente de fé, reunindo o que vinha dos judeus e cristãos ao dos povos da África.
Depois, a praia virou território dos que assistem ao espetáculo pirotécnico dos fogos de artifício. Detesto morteiro, mas amo fogos de artifício. Bato palmas, fico embasbacada. Também adoro contagem regressiva, dar pulinhos, beijos, abraços e - claro - me emocionar, chorar um pouquinho. Embora quisesse ir à Lagoa, onde tem fogos, tem árvore e um bocado de gente, mas a maioria moradores das cercanias, sem sotaques, sem muitos gritos, apenas o júbilo natural que a esperança de dias melhores nos trazem, acabei em Copacabana, onde estive, a última vez, na virada para 2000. Íamos de metrô, desistimos por causa das filas. Fomos em dois táxis (tenho cinco adolescentes em casa atualmente), pousamos na casa de Tia Zélia (a inspiração para a Tia Gertrudes, três ou quatro posts atrás), rumamos para a praia, mas, desta vez, permaneci na calçada mesmo. Tanta traquitanda estava armada entre a areia e as pistas da praia que desisti de tentar um lugar no mar de gente.
Os fogos? Mais lindos que nunca! Mas Copacabana só me pega novamente daqui a seis anos.

Um comentário:

SilkSatin disse...

Uau... tava lembrando fazem exatamente dez anos que eu estive em Copa na praia, para o Reveillon. Na minha opiniao p melhor lugar do mundo para se passar essa data.
A energia que se sente, desde as primeiras horas do dia 31, e alguma coisa de arrepiar.
Tenho saudades... Ano que vem, se tudo der certo, talvez seja onde eu vou passar o Reveillon, com a americanada daqui a tiracolo.