5.6.06

Detonados

Meu parâmetro para a chegada da velhice é o desinteresse em novidades musicais. Dá para viver perfeitamente com as milhares e milhares de canções populares que já conheço e registrei em 45 anos. Vez por outra me encanto com algum novo grupo, uma voz, uma batida. Só.
Jamais ouvi - e acredito que não darei atenção ainda hoje - os Detonautas. Não posso falar nada da qualidade musical deles, nem pretendo.
Posso falar de minha dor, como carioca, ao ver mais um homem juntando-se à relação diária de assassinados por motivo vil. Só não me digam que é sem motivo algum, por uma banalidade: tem motivo, sim, foi latrocínio. Este rapaz que jamais ouvi tocar tira do anonimato a lista de mortos nossos de cada dia. Era branco, de classe média, menino de família (estava com o irmão e a avó no carro). Baleada de raspão foi também uma senhora que aguardava um ônibus, com uma criança no colo.
Vai haver tristeza, choro, passeata. Mas a Copa do Mundo vai começar e só a família e os amigos de Rodrigo Netto sentirão falta dele. Lamentamos a perda de alguém para a violência e seguimos rezando para que não aconteça com um dos nossos. Como está sem sentido viver nesta cidade.
Vivi esses anos todos sem conhecer Rodrigo Netto. Também não conheci quatro homens, identidades não reveladas, cujos corpos foram encontrados hoje de manhã, dentro de um táxi no Centro. Detonados, como Rodrigo - um trocadilho triste, não irônico. Ao tomar conhecimento dessas cinco mortes, a única coisa que posso fazer é pranteá-las, imaginando suas mães, seus filhos, seus pais, irmãos, namoradas, mulheres, amigos. Não há passeata nem eleição que comova nossos administradores federais, estaduais e municipais a decretarem o início do fim desta guerra sem sentido, escrita apenas por perdedores, assistida por muitos com a mesma indiferença a que ontem experimentei ao ver as aventuras de Wolverine e Cia, em" X-Men 3". Pena que não possamos deixar nossos temores reservados ao que está na tela também.

3 comentários:

Juliana Aquino disse...

É, Olga!
O mundo corre desgovernado demais. Belo texto. Triste realidade, mas belo texto!
Beijocas.

Sonia disse...

Meu parâmetro para a chegada da velhice é o desinteresse em novidades musicais. Dá para viver perfeitamente com as milhares e milhares de canções populares que já conheço e registrei em 45 anos.. Eu então, aos 68...
Mas a morte de um rapaz, seja ele músico ou não, ou de um velho, uma criança ou pai/mãe de família é sempre lamentável. Mais lamentável ainda é que estejamos tão acostumados a esse tipo de notícia que nem espanto ela nos provoca mais.

Olga disse...

E, dias depois, tiroteio numa escola. É duro viver no Rio, Sonia e Ju.