10.12.06

Ela voltou


O Rio, iconoclasta como ele só, precisa muito de símbolos que se incorporem à privilegiada paisagem natural. Há alguns natais veio a árvore da Lagoa. Já me acostumara a ela, apesar de considerá-la feia demais. A do ano passado até ficou bonita, melhor do que a de 2004. A cada ano, elas são maiores. Uma beleza de desperdício de energia quando temos horário de verão exatamente para poupá-la. Não importa que tenha gerador próprio, é só o princípio que vejo violado.
Violada também é a Lagoa, coitada, sempre aterrada, entupida de despejos de esgotos que matam peixes ou palco para obras de arte como a felizmente finada estrela-polvo-ovo frito de Tomie Otake, que mais parecia um golpe na auto-estima da cidade, algo como fizeram os gaúchos ao amarrerem os cavalos no obelisco da Avenida Central. Não podiam deixar a Lagoa em paz, enfiaram a árvore de Natal, que, no entanto, permitiu que a região perdesse o ar de gueto de elite que vinha tomando para ser local de passeio de todas as camadas sociais que freqüentam ou vivem na cidade. É delicioso ver aquela montoeira de gente comendo pipoca, tirando fotografias, famílias, namorados, bebês em carrinhos, senhoras de cabelos armados, todos disputando espaço com os corredores e os ciclistas - esses, por sua vez, ficam enfurecidos.
Pena que este ano o Bradesco tenha armado a mais pavorosa de todas as árvores. Durante o dia, vá lá, até que as bolas vermelhas sobre a armação metálica dão um certo tom festivo à pavorosa estrutura. Mas à noite... as bolas se transformam em alegoria de escola de samba, com pinta de pintura de botequim carioca!!! Cada bola, se não me engano, traz a paisagem de alguma cidade brasileira. São HORROROSAS!!!!
Devo passar o reveillon na Lagoa, onde ainda é possível comemorar o Ano Novo num simulacro de cidade civilizada, entre adultos, idosos, crianças e bichos. Criança na rua, à noite, com os pais, é sinônimo de vida tranqüila. Não falo nos meninos de rua, gerações de crianças que ali se criaram sem qualquer cuidado por adultos ou pelo Estado. Falo das crianças que ainda têm pais, como as que eu vi, dois anos atrás, passeando à noite em Gramado, correndo atrás dos artistas que estavam lá para o Festival de Cinema. Ou crianças como eu, que, no outro milênio, era arrastada todas as noites de verão para passear até Copacabana ou até a Praça da Paz, apenas para fazer a digestão e dar uma voltinha na rua. Um mérito a árvore da Lagoa tem. Por algumas noites, em uma pequena área da cidade, vivemos as sensações do Rio do século passado.

3 comentários:

ipaco disse...

E veja como os nossos jornais são totalmente voltados para a zona sul. Várias matérias já saíram sobre a árvore, poucas inclusive mencionando o transtorno que causa ao transito. Agora eventos como o trem do samba, que rola em Osvaldo Cruz, uma festa maravilhosa, já não merece tanto espaço... Só se for violência.

OMM disse...

Paulinho, o trem só sai vez por outra, por algum buraco na página. A árvore é um horror, mas tem realmente este aspecto de congregar as pessoas novamente na rua, o que é muito interessante. Pior, muito pior que ele é o novo shopping do Leblon, uma tragédia para o trânsito que ficará uma droga o resto do ano.

cilene disse...

tambem nao achei bonita nao..estou aproveitando o dia de hoje para desejar um Feliz Natal e super 2007 ; obrigada por fazer parte da minha vida atraves do meu blog..