20.4.08

Onomásticos


Lendo O Mistério de Olga Tchecova, a biografia da atriz russa que era sobrinha de Tchecov e que foi, provavelmente, espiã dos soviéticos na Alemanha Nazista, recordo-me de uma crônica de Carlos Eduardo Novaes, em que ele comentava a dificuldade de acompanhar nomes de personagens e cidades russas. Estou passando por este sofrimento agora, embora o autor Anthony Beevon cuidasse de montar uma lista com todos os personagens (reais) e explicar seu parentesco na apresentação do livro.
O grande problema é que os russos não se conformam em utilizar um só nome e empregam 500 apelidos além dos sufixos - os patronímicos - que indicam sua relação de parentesco. Isso sem contar com a repetição de nomes na mesma família.
Aqui no Brasil, toda Olga é neta de outra Olga. Minha tese é comprovada cientificamente por amostragens aleatórias que faço sempre que conheço alguma xará. A resposta à minha inevitável pergunta é sempre positiva. Na Rússia, entretanto, Olgas pupulam. São mais populares do que Marias.
Outro motivo de confusão é a infinidade de apelidos de que um russo dispõe. Aqui, Olgas, tradicionalmente, são Olguinhas. No máximo, Olguita e variantes, como Olguitcha ou Olguíssima (é, acontece). Na Rússia, Olga é Olia ou Olenka. Pensa que acabou? Nada. Vem depois o patronínimo indicando quem é seu pai ou seu sogro e seu marido. Dependendo do sufixo, se descobre a vida inteira da criatura.
Ainda tem a confusão adicional que fazemos por utilizarmos apelidos masculinos, como 'Vania', que é Joãozinho, para batizar meninas. Mais recentemente, Sasha, que era Alexandrinho, também tomou feições femininas no Brasil. O Alexandre passa de Alexei a Aliocha em duas páginas, recebendo, na seguinte, um Sacha Ivanovitch, para deixar o leitor mais tonto ainda.
Se o romance for do século XIX ainda contará com uma infinidade de troca de cavalos em cada cidade que as diligências atravessam, porque os russos viviam on the road. Os postilhões descem para a troca de cavalos em localidades gélidas da estepe que sempre têm nomes impronunciáveis. Carlos Eduardo Novaes dizia suspirar aliviado quando a família de Volódia cortava a tundra com Sônia, Vania, Lev, Olga, Aliocha, Dmitri, Masha, Misha, Feodor e Nadesda para chegar a Kiev. Isso porque as cidades russas também podem trocar de nome a cada governo, como São Petersburgo, que virou Leningrado, e voltou a ser São Petersburgo, para a felicidade das notas de pé de página.
Agora, a Olga Tchecova era sobrinha emprestada do Anton Thecov, que era casado com sua tia ... Olga Tchecova, claro! A mulher do dramaturgo era atriz e adorada pelos sobrinhos, que a chamavam de Tia Olia. Provavelmente, a sobrinha recebeu o nome em homenagem à tia. Bem, o cunhado de Tia Olia, Misha, irmão de Anton, se apaixonou pela sobrinha de Olga, a jovem e bela ... Olga. Misha, também ator, casou-se com Olga, a sobrinha, tornando-se, portanto, sobrinho de seu irmão. Olguinha adotou o sobrenome Tchecova, como Tia Olia, e seguiu a mesma profissão. Com Misha, teve uma filha chamada Ada, nome de sua irmã mais velha. Separada de Misha, foi para a Alemanha, virou superstar e, diz a lenda, tornou-se espiã soviética, sendo condecorada na década de 70 por serviços prestados ao comunismo.
É óbvio que, durante a vida inteira, as Olgas passearam por Minsk, Vladivostok, Sebastopol e milhares de portos gelados, atuando e bebendo muita vodka. A história é ótima, enredo interessantíssimo. O que mata é a profusão de nomes nem sempre originais.

Um comentário:

Halem Souza disse...

Dica anotada. E sobre os nomes russos, todaa vez que leio Dostoiévski deparo com esses apelidos: é Dimitri que vira Mitenka ou Mítia ou Agrafiena que vira Grushenka e assim vai... Um abraço.