9.1.09


O Dau é um dos meus sete (!!!!) compadres.
É tão difícil hoje em dia alguém ter compadres e comadres, mas, com quatro filhos e quatro afilhados, eu tenho a sorte de contar com tantos - que se tornaram parentes, também.
Dau e Giselle fizeram uma bela família. No momento, sentem um pouco da síndrome do ninho vazio, já que a primogênita (tô antiga hoje...) Ana Luísa foi trabalhar por um curto período na Flórida.
E isso ensejou a reflexão abaixo, que, na falta de um blog próprio, Dau enviou pra termos a honra de publicar cá nessas Arenas.
A propósito, também acho meio difícil sentir saudades atualmente. Ou até a gente se desligar, em férias, do mundo real.

Saudade

A casa da saudade chama-se memória: é uma cabana pequenina a um canto do coração. (Henrique Maximiliano Coelho Neto - Romancista e contista brasileiro - 1864/ 1934)

Dizem que saudade é uma palavra que só existe na língua portuguesa. Expressa mais do que nostalgia, tem a ver com falta, esperança e distância. Sem um destes ingredientes, o que ela é? E, justamente, vivendo um momento de distância de minha filha mais velha, sentindo sua falta no dia a dia, na esperança do reencontro em breve, descobri que a saudade é, como tantas outras espécies atualmente, uma categoria em extinção.

Realmente, sentir saudade dói, mas cria um mundo vivo e saudável em nossas memórias. Ajuda a exercitar o verdadeiro conhecer o outro, a valorizar aquilo que, muitas vezes, não percebemos pelo excesso de proximidade. E, quando do reencontro, chorar de alegria, curtir tudo aquilo que aquela falta representou, aproveitar cada momento de convívio. Só que...

Só que hoje existem as tais tecnologias de informação, essa Internet, em banda larga, que nos permite estar em qualquer lugar, a qualquer momento, em texto, som, imagem. E aí, covardes que somos, com medo de sentir um pouquinho de dor e solidão, usamos dessas tecnologias para, consciente ou inconscientemente, procurar exterminar essa tal de saudade. Um cyber-café, um ponto de rede, um acesso wireless no aeroporto, um notebook (já encolheram, esses danados, viraram netbooks, mistura de rede e computador) e lá estamos nós, dando notícias diárias, mostrando nosso rosto e fotos para que não haja sequer tempo de sentirem nossa falta. Há ainda o recurso dos celulares, com sms, mms e outros, tudo viabilizado pelo roaming internacional.

Tudo isso é muito bom, sim, mas algo se perdeu. Aquela expectativa que acompanhava a viagem de pais, tios, primos, amigos, namoradas, de olhar todo dia a caixa de correio para ver se chegava algum cartão ou carta. A surpresa quando, brasileiros espertos, descobríamos algum orelhão no exterior que, distraído, nos permitia ligar para casa de graça. Os dias sem notícias, em que a imaginação voava solta, pensando no que o outro estaria fazendo. E, por fim, o retorno, o abraço, o beijo, as horas de bate-papo, de abrir a mala, ver postais, descobrir mimos e lembranças. Havia, ainda, um outro prazer: a tal revelação das fotos, que mesmo quem tirava só via e sabia como tinham ficado depois.

Se, por um lado, o mundo se tornou menor, facilitando estarmos com qualquer um, a qualquer tempo, em qualquer lugar, por outro encolheu, também, um espaço precioso: o da nossa imaginação, o do nosso interior. Nossos cyber-sentidos se ampliaram, mas, e nossa intimidade? E a profundidade de nossa alma?

Não estou desdenhando a importância ou o valor da tecnologia. Pai coruja (pãe, brincam alguns) que sou, sem dúvida foi mais fácil suportar dois longos meses sem a presença constante de minha filhota. Mas, ainda assim... Não sei... Acho que sinto saudades da saudade.

Jorge Alberto Torreão Dáu.

2 comentários:

tertulías disse...

eu te dou razao, muita. sentir saudade dói... e eu aqui, mestre nisto, depois de 28 anos fora do rio...

paçoca disse...

Não podemos nos esquecer que somos livres e temos o direito de usar a tecnologia se quisermos... De qualquer forma continuo sentido muitas saudades dos meus queridos mesmo com toda esta parafernália (como é que se escreve?). Um abracinho gostoso, o cheirinho a voz, tantas coisas além de uma simples imagem.