
No século passado, quando nasci, a vida era diferente, como também o era há dez anos. E o passado é sempre visto com lentes douradas. Havia menos violência explícita, mas o preconceito e o desrespeito a quem diferia de modelos estabelecidos séculos antes criava severas distorções sociais.
A inadaptação do ser humano ao presente é uma constante. Com exceção do jovem, sempre disposto a experimentações diversas, a maioria das pessoas se assusta com o que rompe padrões. Ou o que não rompe, quando o estabelecido é muito mais intenso e revolucionário do que o que se apresenta como novo, sob falsa roupagem.
Tanto filosofês se deve à enxurrada de posts sobre os "bons tempos" que recebo quase diariamente, de cinqüentões que, como eu, às vezes se sente aturdidos com o que se apresenta como novidade. Existe uma nova ordem social, educacional, moral, religiosa. Existe uma mediocridade ampla, geral, quase irrestrita.
Mas existe a ciência, que não se assusta frente a novos desafios, como uma gripe perigosa, que pode matar rapidamente. Igual a doenças graves, entre elas nossa dengue - que este ano não fez tantas vítimas assim.
A idade nos traz rugas pavorosas e uma sensação de deja vu que só compreendi na segunda invasão americana do Iraque. Na primeira, ordenada por Bush Senior, meu pai era vivo. Disse, sabiamente, que aquela guerra não precisava me angustiar além da tristeza que qualquer ato violento provoca. Muita gente morreria, muita dor seria causada. No entanto, o mundo continuaria. Na segunda invasão, apesar da tristeza pela repetição de uma agressão absurda e sem sentido, eu tive a certeza de que o mundo sobreviveria. Como sobreviveu ao 11 de setembro, a tantas guerras nojentas, a tanta dor justificada por mesquinharias que só encobrem a volúpia por lucros indecentes.
A história se repete. O sabor de suco de groselha da infância era tão falso quanto Papai Noel. Experimentei suco de groselha depois de adulta. É pior que Grapette ou Mineirinho. Mas tinha o encanto das primeiras experiências, da falta de responsabilidade, de acreditar que os pais nos salvarão de todos os perigos, que Deus nos acolherá após a morte física.
Recordar é bom, é agradável, é romântico.
Enfrentar a vida de hoje, com toda a dureza que ela insiste em jogar à nossa frente, é instigante e renovador.