1.5.09

Abaixo o Grapette


No século passado, quando nasci, a vida era diferente, como também o era há dez anos. E o passado é sempre visto com lentes douradas. Havia menos violência explícita, mas o preconceito e o desrespeito a quem diferia de modelos estabelecidos séculos antes criava severas distorções sociais.
A inadaptação do ser humano ao presente é uma constante. Com exceção do jovem, sempre disposto a experimentações diversas, a maioria das pessoas se assusta com o que rompe padrões. Ou o que não rompe, quando o estabelecido é muito mais intenso e revolucionário do que o que se apresenta como novo, sob falsa roupagem.
Tanto filosofês se deve à enxurrada de posts sobre os "bons tempos" que recebo quase diariamente, de cinqüentões que, como eu, às vezes se sente aturdidos com o que se apresenta como novidade. Existe uma nova ordem social, educacional, moral, religiosa. Existe uma mediocridade ampla, geral, quase irrestrita.
Mas existe a ciência, que não se assusta frente a novos desafios, como uma gripe perigosa, que pode matar rapidamente. Igual a doenças graves, entre elas nossa dengue - que este ano não fez tantas vítimas assim.
A idade nos traz rugas pavorosas e uma sensação de deja vu que só compreendi na segunda invasão americana do Iraque. Na primeira, ordenada por Bush Senior, meu pai era vivo. Disse, sabiamente, que aquela guerra não precisava me angustiar além da tristeza que qualquer ato violento provoca. Muita gente morreria, muita dor seria causada. No entanto, o mundo continuaria. Na segunda invasão, apesar da tristeza pela repetição de uma agressão absurda e sem sentido, eu tive a certeza de que o mundo sobreviveria. Como sobreviveu ao 11 de setembro, a tantas guerras nojentas, a tanta dor justificada por mesquinharias que só encobrem a volúpia por lucros indecentes.
A história se repete. O sabor de suco de groselha da infância era tão falso quanto Papai Noel. Experimentei suco de groselha depois de adulta. É pior que Grapette ou Mineirinho. Mas tinha o encanto das primeiras experiências, da falta de responsabilidade, de acreditar que os pais nos salvarão de todos os perigos, que Deus nos acolherá após a morte física.
Recordar é bom, é agradável, é romântico.
Enfrentar a vida de hoje, com toda a dureza que ela insiste em jogar à nossa frente, é instigante e renovador.

11 comentários:

tertulías disse...

Querida,
li "Recordar é bom, é agradável, é romântico.
Enfrentar a vida de hoje, com toda a dureza que ela insiste em jogar à nossa frente, é instigante e renovador" e me sinto de certa forma causador desta postagem... será que estou certo?

Caco disse...

A última coisa que pensei era que você pudesse ter mais que cinquenta. "E daí?" A última coisa que penso no que leio é a potencial idade do blogger. A idade é o que emana da mente, não?

Olga disse...

Ricardo, meu querido, vc instigou, mas longe de mim criticar seu lindo texto. Acontece que a gente recebe um monte de mensagens falando que os tempos d'outrora eram o máximo e que hoje a vida se denegriu a ponto de estarmos todos sem qualquer tipo de valor a seguir. Não é bem assim. Mas eu adorei seu texto, sinceramente.
Caco, não cheguei aos 50 ainda. Estou pertinho, com 48. Jovialidade é algo a ser cultivado quando a juventude passa,não?
Beijo a ambos!!!

Jôka P. disse...

Cheguei aos 50 com um corpinho de 49.
Abaixo os nostálgicos com aquele cheiro enjoativo de Leite Rosa.

tertulías disse...

Que bom... nao me sinto como um nostálgico com cheiro de leite de rosas como acima mencionado por jonas. eu fiz um relato sobre coisas... agora, quem entrou na onda de nostalgia foram os outros... só de uma coisa sinto falta - mesmo - de mais seguranca e menos perigo nas uas do rio...

tertulías disse...

ah! e ja ía me esquecendo: "Abaixo" saiu de moda... só gente muito insegura ainda brada desta forma... sinto-me mais à vontade num "live and let live", nao acham?

Hugo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Olga disse...

Jôka e Ricardo, não se desentendam por minhas filosofices. Eu concordo com ambos.
Detesto Leite de Rosas. E sou uma nostálgica também.
Enfim, recordar é viver, claro, mas não dá é pra ficarmos só pensando no passado dourado - que é a impressão que muita gente me dá. Isso me assusta um pouco.
Mas, olhem, eu estou velhíssima. Não consigo me empolgar por música atualmente. E acabo de assistir a um documentário sobre o The Who.
Querem coisa mais antiga?
beijo a ambos!

Monica Araujo disse...

Olga,

você tocou em ponto interessante, o clima nostálgico eu gosto bastante , porém Mineirinho e Grapette acho horroroso o sabor , assim como as balas de tamarindo que todos cismavam em dizer que eram boas e viraram moda em uma determinada época, na verdade eram azedas e doíam a bochecha.

Pior do que a nostalgia, é o senso comum. Esta mania de concordar que uma coisa é boa , só por que todos dizem que é irritante.

beijos.

Caco disse...

Não falemos mais de idade.
Vi a sua estante e queria te convidar para o Shelfari (www.shelfari.com). Pode me procurar lá pelo meu nome já que não sei se você está por lá.
Dá para colocar um widget no blog e fica bem legal (veja lá como ficou na coluna à direita no FdG).
Beijodaí.

Charlyeston disse...

"O mundo", primeiro mundo é dentro de uma barriga,o que seria fora da barriga "o mundo"? O segundo mundo,somos nós, questionando o nosso pequeno "mundo juntos". O terceiro mundo é a mórte; assim julgamos, o que seria fora do mundo "a mórte"? A mórte nao é o fim,muito menos o "fim do mundo"