22.8.05

Ressaca

Hoje não é um dia muito feliz. É um dia de ressaca. De ressaca carioca, mas não da boemia.
A ressaca da violência, do ultraje, do acostumar-se a ser vilipendiado, desrespeitado, ignorado.
Com outros cariocas acontece coisa pior. Eles perdem tudo: casas na enchente, filhos no tiroteio, pais atropelados. Eu só perdi a tranqüilidade, aquela sensação falsa a que me apeguei como um marsupial ao ombro da mãe. É a sensação que garantia minha permanência sobre este solo.
Chegar em casa e encontrar seu quarto revirado, seus documentos jogados, livros no chão, roupas, lenços, lingerie...
Como ele entrou? Pela janela talvez? O que levou? Até agora, só demos falta de um cofrinho de crianças e de meu título de eleitor (?).
Será uma tentativa do lobby das armas de me pressionar a votar contra o desarmamento, no plebiscito?
Será que pensam que eu conheço segredos industrais importantes para George W. Bucho?
Será que o cara desistiu ao obter apenas 10 reais em moedinhas como féria do ganho?
Será que o cara se assustou com algum barulho e caiu fora?
Ah, que bom que a gente estava na rua, que bom que as crianças estavam a salvo, que bom que nada nos aconteceu.
Na delegacia, os policiais discutiam se registravam o caso como tentativa de furto ou invasão de propriedade privada. Perícia? Pra quê se sou dura mesmo? Investigação? Ah, quem decide isso é o delegado e aí ele costuma chamar o síndico - que, aliás, nem se dignou a descer para verificar o estrago.
Agora, é trocar fechaduras, gradear ainda mais a fortaleza em que me encerro e deixar o mistério para nunca ser entendido, como alguns fatos da vida.

3 comentários:

Wagner disse...

Pelo visto - e por sorte! - foi só um susto. Tanto melhor que tenha ocorrido assim, e que vocês não tenham perdido nada além de tempo para rearrumar tudo.
Achei que sua janela tivesse grade... Isso aconteceu durante o dia? Que coisa!...
No seu caso, "botar a tranca na porta depois de arrombada" não tem a conotação original, e vem bem a calhar.
Beijo.

maria rezende disse...

Olga do céu, vim me ver aqui e fiquei horrorizada com a sua história! Eu moro sozinha e nunca nem penso nisso, mas lendo assim dá um meeeedo de alguém invadir a casa da gente, né? E se alguém está em casa, imagina? Bom, que bom que deu tudo certo! Beijo e obrigada pela divulgação!

Olga disse...

Wagner e Maria,
Primeiro é a náusea, ao imaginar um desconhecido mexendo em suas roupas. Depois vêm os tremores, as dores no corpo, as paranóias. Eu sempre achei que casa sem grades denota que o proprietário, longe de ser descuidado, é alguém que pouco tem a zelar. Eu tinha grades apenas em um quarto, as demais haviam sido retiradas. Posso até gradear tudo com ferro, mas é algo que me agride tanto...Troquei fechaduras e continuo intrigada com o sumiço de meu título de eleitor, apenas. E 10 reais do Hugo, acreditam?
Parece que caminhei 25 quilômetros sob o sol. Estou exausta.
beijo, obrigada pelo carinho!